Quinze: Dr. Gerald L. Shook, Parte 2

Em uma postagem anterior (Parte 1), a leitura de um texto do Dr. Gerald L. Shook foi relatada. Na sequência, fecharemos o Desafio Número 15.

Gerald Shook, carinhosamente conhecido como Jerry, faleceu em 2011 por conta de uma batalha de 11 meses contra um câncer no pulmão. Jerry Shook adorava carros; em especial o seu Porsche 356C de 1964 de cor creme. Teve uma maravilhosa vida ao lado de sua esposa e de seu cachorro Teddy Bert, familiares e amigos. Em 2009 concretizou seu sonho de se mudar para California e morar na base da montanha Sierra Nevada perto do Lago Tahoe – “um lugar que era muito especial para ele em todas as estações”. 

Não tive a oportunidade de contatar o Dr. Shook nesse Projeto. Mas descobri que ao menos um evento de nossas vidas se cruzaram, por uma estranha coincidência. Menos de trinta dias atrás estava eu, há mais de 3000km longe de casa, apreciando uma paisagem serena de frente para esse mesmo Lago. 

img_20161226_145247263_hdrFigura 1: Lago Tahoe, Dezembro de 2016. (Foto: Fernanda Oda)

Referências:

In Memory of Dr. Jerry Shook (2011). Disponível em http://obits.dignitymemorial.com/dignity-memorial/obituary.aspx?n=Gerald-Shook&lc=2615&pid=154616565&mid=4884698&locale=en-US#.TsGFjyGK1N0.facebook

 

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Quinze: Dr. Gerald L. Shook, Parte 1

E o décimo quinto pesquisador do Projeto é o Doutor Gerald L. Shook (Behavior Analyst Certification Board; Littleton, Colorado/EUA). De acordo com o site da ABAI, Shook é a figura responsável pela criação do desenvolvimento profissional mais importante no campo da Anáise do Comportamento: o programa de certificação internacional do BACB® (Behavior Analyst Certification Board®). Em outras palavras, Shook criou a profissão de analista aplicado do comportamento.

2005shookFoto 1– Gerald L. Shook (Fonte: site da ABAI)

O texto escolhido como leitura para esse quinto desafio foi “Training and Professional Certification in Applied Behavior Analysis” (2011), de Shook e Johnston. Com base nessa e outras leituras relacionadas à área de certificação, apresento abaixo um breve texto sobre a a certificação nos EUA do ponto de vista histórico.

Breve história e panorama atual  da Certificação nos EUA

Não raro grande parte dos membros da comunidade de analistas do comportamento nos EUA costuma se identificar como “BCBA-D”, “BCBA”, “BCaBA” ou “RBT”. Juntando com a sigla “BACB”, tais termos podem gerar confusão para os brasileiros.

Todas essas siglas tem relação com a associação de certificação da profissão de analista do comportamento fundada nos EUA: BACB® (Behavior Analyst Certification Board®) – lê-se “bi-ei-si-bi”. O Dr. Gerald L. Shook foi o grande idealizador e fundador dessa associação na década de 80. No desenvolvimento dessa corporação, diferentes programas foram criados. E hoje 4 tipos de credenciais são oferecidas pela organização BACB, dividindo os profissionais em níveis hierárquicos.  O BCBA-D® (Board Certified Behavior Analyst-Doctoral®) – lê-se “bi-si-bi-ei-di” – é uma credencial especial para analistas do comportamento com título de doutor na área. O BCBA® (Board Certified Behavior Analyst®) – lê-se “bi-si-bi-ei” – é a credencial para analistas do comportamento com nível de pós-graduação, geralmente com título de mestre na área. Já o BCaBA® (Board Certified Assistant Behavior Analyst®) – lê-se “bi-si-ei-bi-ei” – é a credencial para analistas do comportamento com nível de graduação na área. Finalmente, RBT® (Registered Behavior Technician®) – lê-se “ar-bi-ti” – é a credencial para os paraprofissionais na área, disponíveis para pessoas com um mínimo de diploma de ensino médio.

glossario1

Em geral, o nível técnico de RBT acaba não sendo denominado como um profissional “analista do comportamento”. É comum falar que apenas as categorias BCBA-D, BCBA e BCaBA englobam o que chamam de “behavior analyst“. Além disso, cabe notar que nesses casos o termo usado é mesmo “behavior analyst”, e não “applied behavior analyst” – ainda que a certificação seja mais amplamente difundida entre os profissionais voltados para a prestação de serviços e pesquisa aplicada. Por exemplo, é comum também que profissionais da pesquisa básica ou de outras áreas no campo da Análise do Comportamento não adotem tais credenciais. Mas é sabido que grande parte da comunidade de analistas do comportamentos norte-americana é composta por profissionais dedicados à Análise Aplicada do Comportamento.

Mas qual foi a motivação da criação de uma associação para fornecer credenciais? A história teve seu início quando a Análise do Comportamento Aplicada ao autismo estava sendo amplamente disseminada nos EUA.  Bailey e Burch (2005/2011) relata que em meados da década de 60 algumas pessoas estavam oferecendo treinamentos, workshops e tratamentos para o autismo em ampla escala, utilizando-se inadequadamente de procedimentos de reforçamento e punição. O estopim para a mobilização da formação de uma credencial ocorreu no início da década de 70: especificamente na Flórida, ocorreu uma investigação de abuso de pessoas com transtornos do desenvolvimento em uma clínica por parte de membros que se denominavam “modificadores do comportamento” (“behavior modifiers“, ou “behavior mod“) ou “especialistas do comportamento” (“behavior specialists“. Mobilização de diversas instâncias com o objetivo de investigar o caso e prevenir futuros abusos foram feitas, incluindo as ações do Blue Ribbon Committee, da Florida Association for Retarded Children (hoje denominada Arc of Florida), e do The Statewide Peer Review Committee for Behavior Modification (PRC); ainda, conferências históricas para discussão da temática foram realizadas no início de 1980, incluindo uma conferência da FABA (Florida Association for Behavior Analysis) em 1981, onde Skinner foi o palestrante principal (Bailey & Burch, 2005/2011).

Criar uma organização profissional não é uma tarefa fácil. Gerald L. Shook é reconhecido como um visionário da área por seu trabalho de criar a organização BACB. Além da mobilização histórica em torno da prevenção de futuros escândalos na área, outro fator foi crítico para a organização de uma instituição de credenciamento: a disponibilidade de financiamento substancial do governo estadunidense para o tratamento de pessoas com autismo (Shook & Johnston, 2011). Daí também a necessidade de criar mecanismos para identificar profissionais analistas do comportamento qualificados para oferecer terapia, treinamento e tratamento. 

Shook e Johnston (2011) relatam haver duas formas de credenciais profissionais: i) habilitação concedida pelo governo estadual, provincial ou nacional; e 2) certificação profissional concedida por uma agência privada. O autor aponta como vantagens para o segundo tipo de credencial o fato de que ela não é limitada por fronteiras geográficas (transpondo barreiras estaduais e nacionais), podendo ser voluntária ou mandatória para a prática, e ainda podem ser utilizadas por consumidores, empregadores e pelo governo de diversos modos. 

Por fim, cabe notar que, tal como outros programas de credenciamento profissional, a certificação do BACB possui certos componentes e requerimentos: parâmetros de eligibilidade para obter a credencial, um exame escrito, e educação continuada (Shook & Johnston, 2011). Dentre os parâmetros de eligibilidade fazem parte os requisitos de ter cursado disciplinas em áreas específicas da Análise do Comportamento e ter cumprido horas de estágio supervisionadas por profissionais credenciados. Desse modo, mesmo que a certificação não se limite a fronteiras geográficas – e pessoas de todo o mundo podem aplicar para obter certificação -, pode-se argumentar que ainda assim existem outras barreiras para a disseminação dessa certificação, visto que nem todos os cursos de graduação e pós-graduação de Psicologia ou Análise do Comportamento oferecem todos os cursos e as horas práticas exigidas pela organização. Sobre a manutenção da credencial, a organização costuma exigir educação continuada tendo como parâmetro atividades desempenhadas e horas de dedicação às atividades, além de uma taxa anual. Ainda, para a obtenção e manutenção das credenciais, o profissional deve seguir um Código de Ética criado pelo BACB, o qual é atualizado anualmente.

Mais informações sobre a organização BACB podem ser encontradas em seu site oficial: http://bacb.com/

Cabe por fim notar que processos de acreditação de profissionais na área tem sido criados mundialmente por outras instituições e independentemente da organização BACB. Um processo de acreditação de analistas do comportamento foi fundado mais recentemente pela Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental (ABPMC). As justificativas para tal criação de acreditação no Brasil, bem como os critérios de elegibilidade, podem ser encontrados no seguinte endereço: http://acreditacao.abpmc.org.br/

Referências:

Bailey, J.S.; Burch, M. R. (2005/2011). Ethics for Behavior Analysts. 3rd Edition. New York: NY

Fellows of ABAI – Gerald L. Shook. Disponível em https://www.abainternational.org/constituents/bios/geraldshook.aspx

Shook, G.L.; Johnston, J.M. (2011). Training and Professional Certification in Applied Behavior Analysis. Capítulo 31 do livro Handbook of ABA (Fisher, Piazza, & Roane).


Leia mais sobre o Projeto a Fonte e a Ponte e a Análise do Comportamento:
a Apresentação
o Início dos Resultados
Por que eu deveria aprender sobre a ciência do comportamento?
as Profundezas do Método