Quinze: Dr. Gerald L. Shook, Parte 1

E o décimo quinto pesquisador do Projeto é o Doutor Gerald L. Shook (Behavior Analyst Certification Board; Littleton, Colorado/EUA). De acordo com o site da ABAI, Shook é a figura responsável pela criação do desenvolvimento profissional mais importante no campo da Anáise do Comportamento: o programa de certificação internacional do BACB® (Behavior Analyst Certification Board®). Em outras palavras, Shook criou a profissão de analista aplicado do comportamento.

2005shookFoto 1– Gerald L. Shook (Fonte: site da ABAI)

O texto escolhido como leitura para esse quinto desafio foi “Training and Professional Certification in Applied Behavior Analysis” (2011), de Shook e Johnston. Com base nessa e outras leituras relacionadas à área de certificação, apresento abaixo um breve texto sobre a a certificação nos EUA do ponto de vista histórico.

Breve história e panorama atual  da Certificação nos EUA

Não raro grande parte dos membros da comunidade de analistas do comportamento nos EUA costuma se identificar como “BCBA-D”, “BCBA”, “BCaBA” ou “RBT”. Juntando com a sigla “BACB”, tais termos podem gerar confusão para os brasileiros.

Todas essas siglas tem relação com a associação de certificação da profissão de analista do comportamento fundada nos EUA: BACB® (Behavior Analyst Certification Board®) – lê-se “bi-ei-si-bi”. O Dr. Gerald L. Shook foi o grande idealizador e fundador dessa associação na década de 80. No desenvolvimento dessa corporação, diferentes programas foram criados. E hoje 4 tipos de credenciais são oferecidas pela organização BACB, dividindo os profissionais em níveis hierárquicos.  O BCBA-D® (Board Certified Behavior Analyst-Doctoral®) – lê-se “bi-si-bi-ei-di” – é uma credencial especial para analistas do comportamento com título de doutor na área. O BCBA® (Board Certified Behavior Analyst®) – lê-se “bi-si-bi-ei” – é a credencial para analistas do comportamento com nível de pós-graduação, geralmente com título de mestre na área. Já o BCaBA® (Board Certified Assistant Behavior Analyst®) – lê-se “bi-si-ei-bi-ei” – é a credencial para analistas do comportamento com nível de graduação na área. Finalmente, RBT® (Registered Behavior Technician®) – lê-se “ar-bi-ti” – é a credencial para os paraprofissionais na área, disponíveis para pessoas com um mínimo de diploma de ensino médio.

glossario1

Em geral, o nível técnico de RBT acaba não sendo denominado como um profissional “analista do comportamento”. É comum falar que apenas as categorias BCBA-D, BCBA e BCaBA englobam o que chamam de “behavior analyst“. Além disso, cabe notar que nesses casos o termo usado é mesmo “behavior analyst”, e não “applied behavior analyst” – ainda que a certificação seja mais amplamente difundida entre os profissionais voltados para a prestação de serviços e pesquisa aplicada. Por exemplo, é comum também que profissionais da pesquisa básica ou de outras áreas no campo da Análise do Comportamento não adotem tais credenciais. Mas é sabido que grande parte da comunidade de analistas do comportamentos norte-americana é composta por profissionais dedicados à Análise Aplicada do Comportamento.

Mas qual foi a motivação da criação de uma associação para fornecer credenciais? A história teve seu início quando a Análise do Comportamento Aplicada ao autismo estava sendo amplamente disseminada nos EUA.  Bailey e Burch (2005/2011) relata que em meados da década de 60 algumas pessoas estavam oferecendo treinamentos, workshops e tratamentos para o autismo em ampla escala, utilizando-se inadequadamente de procedimentos de reforçamento e punição. O estopim para a mobilização da formação de uma credencial ocorreu no início da década de 70: especificamente na Flórida, ocorreu uma investigação de abuso de pessoas com transtornos do desenvolvimento em uma clínica por parte de membros que se denominavam “modificadores do comportamento” (“behavior modifiers“, ou “behavior mod“) ou “especialistas do comportamento” (“behavior specialists“. Mobilização de diversas instâncias com o objetivo de investigar o caso e prevenir futuros abusos foram feitas, incluindo as ações do Blue Ribbon Committee, da Florida Association for Retarded Children (hoje denominada Arc of Florida), e do The Statewide Peer Review Committee for Behavior Modification (PRC); ainda, conferências históricas para discussão da temática foram realizadas no início de 1980, incluindo uma conferência da FABA (Florida Association for Behavior Analysis) em 1981, onde Skinner foi o palestrante principal (Bailey & Burch, 2005/2011).

Criar uma organização profissional não é uma tarefa fácil. Gerald L. Shook é reconhecido como um visionário da área por seu trabalho de criar a organização BACB. Além da mobilização histórica em torno da prevenção de futuros escândalos na área, outro fator foi crítico para a organização de uma instituição de credenciamento: a disponibilidade de financiamento substancial do governo estadunidense para o tratamento de pessoas com autismo (Shook & Johnston, 2011). Daí também a necessidade de criar mecanismos para identificar profissionais analistas do comportamento qualificados para oferecer terapia, treinamento e tratamento. 

Shook e Johnston (2011) relatam haver duas formas de credenciais profissionais: i) habilitação concedida pelo governo estadual, provincial ou nacional; e 2) certificação profissional concedida por uma agência privada. O autor aponta como vantagens para o segundo tipo de credencial o fato de que ela não é limitada por fronteiras geográficas (transpondo barreiras estaduais e nacionais), podendo ser voluntária ou mandatória para a prática, e ainda podem ser utilizadas por consumidores, empregadores e pelo governo de diversos modos. 

Por fim, cabe notar que, tal como outros programas de credenciamento profissional, a certificação do BACB possui certos componentes e requerimentos: parâmetros de eligibilidade para obter a credencial, um exame escrito, e educação continuada (Shook & Johnston, 2011). Dentre os parâmetros de eligibilidade fazem parte os requisitos de ter cursado disciplinas em áreas específicas da Análise do Comportamento e ter cumprido horas de estágio supervisionadas por profissionais credenciados. Desse modo, mesmo que a certificação não se limite a fronteiras geográficas – e pessoas de todo o mundo podem aplicar para obter certificação -, pode-se argumentar que ainda assim existem outras barreiras para a disseminação dessa certificação, visto que nem todos os cursos de graduação e pós-graduação de Psicologia ou Análise do Comportamento oferecem todos os cursos e as horas práticas exigidas pela organização. Sobre a manutenção da credencial, a organização costuma exigir educação continuada tendo como parâmetro atividades desempenhadas e horas de dedicação às atividades, além de uma taxa anual. Ainda, para a obtenção e manutenção das credenciais, o profissional deve seguir um Código de Ética criado pelo BACB, o qual é atualizado anualmente.

Mais informações sobre a organização BACB podem ser encontradas em seu site oficial: http://bacb.com/

Cabe por fim notar que processos de acreditação de profissionais na área tem sido criados mundialmente por outras instituições e independentemente da organização BACB. Um processo de acreditação de analistas do comportamento foi fundado mais recentemente pela Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental (ABPMC). As justificativas para tal criação de acreditação no Brasil, bem como os critérios de elegibilidade, podem ser encontrados no seguinte endereço: http://acreditacao.abpmc.org.br/

Referências:

Bailey, J.S.; Burch, M. R. (2005/2011). Ethics for Behavior Analysts. 3rd Edition. New York: NY

Fellows of ABAI – Gerald L. Shook. Disponível em https://www.abainternational.org/constituents/bios/geraldshook.aspx

Shook, G.L.; Johnston, J.M. (2011). Training and Professional Certification in Applied Behavior Analysis. Capítulo 31 do livro Handbook of ABA (Fisher, Piazza, & Roane).


Leia mais sobre o Projeto a Fonte e a Ponte e a Análise do Comportamento:
a Apresentação
o Início dos Resultados
Por que eu deveria aprender sobre a ciência do comportamento?
as Profundezas do Método

Treze: Dr. Murray Sidman, Parte 1

E o décimo terceiro pesquisador estudado no Projeto é o Professor Doutor Murray Sidman. O site da ABAI o define como um analista do comportamento completo, que esteve presente no campo desde sua origem. O Professor Sidman nasceu em 1923, prestou serviço militar na Segunda Guerra Mundial e em 1950 obteve seu doutorado, tendo sido orientado em sua trajetória acadêmica pelos professores Fred S. Keller e W. N. Schoenfeld (site da SABA). Trabalhou parte de sua carreira em um ambiente interdisciplinar com a neuropsiquiatria. A atuação do professor Sidman abrange universidades norte-americanas como a Columbia University, a Harvard Medical School, a University of Nevada, a Northeastern University, a Johns Hopkins University, e também a Universidade de São Paulo, a Keio University de Tóquio e a University of Canterbury in Christchurch da Nova Zelândia. Assim, disseminou a ciência do comportamento internacionalmente (e por isso recebeu um prêmio da SABA em 1996), tendo inclusive influenciado gerações de analistas do comportamento no Brasil, seja através de suas aulas, artigos ou livros. Todorov (2010) relata que as visitas do professor Murray Sidman ao Brasil nas décadas de 80 e 90 promoveram o estudo sobre comportamento simbólico e equivalência de estímulos, temas até hoje estudados com maestria por pesquisadores na UFSCar.

2005SidmanFigura 1 – Murray Sidman (Fonte: site da ABAI)

O Professor Murray Sidman tem contribuído para a produção acadêmica na área de modo notável. Três livros seus são conhecidos no Brasil: o simpático livro de capa amarela Coerção e Suas Implicações (1989/2000), o livro sobre metodologia Táticas da Pesquisa Científica (1960/1976), e o livro Equivalence Relations and Behavior: A Research Story (1994).

coercaoesuasimplicacoes_sidmanFigura 2 – O livro Coerção e suas implicações (Fonte: site da Carlos Livraria)

O livro amarelo foi um dos primeiros livros acadêmicos que tive contato. Sei que ele é o livro de cabeceira de algumas pessoas. Não à toa – é um livro acolhedor e gentil: linguagem acessível, apresenta o (vasto) conteúdo em pequenas doses e convida o leitor a repensar sobre as práticas da nossa cultura. Com tranquilidade, é um livro que entra facilmente na categoria de publicações para ler e reler [um roteiro muito legal para ler esse livro foi desenvolvido por docentes da PUC-SP]. Coerção e suas implicações é um livro sobre controle aversivo, mas não só isso – é possível encontrar em suas linhas muito sobre a humanidade e o comportamento humano como um todo. Inclusive, uma das minhas passagens preferidas, cheia de lucidez,  é essa:

Post3foto4__Trecho 1 – Passagem extraída do livro de Sidman Coerção e suas Implicações (1989/2000).

Para colecionadores de relatos de tom bem pessoal de grandes estudiosos, vale a leitura de um artigo de Sidman publicado no JEAB em 2007. É Sidman falando sobre algumas consequências (pouco mencionadas) presentes no contexto do pesquisador. Mas acho que esse artigo tem um público especial. Se você é um estudante, pesquisador ou profissional precisando de uma motivação, ou procurando sentir novamente aquele entusiasmo inicial que se perdeu no caminho, recomendo sua leitura – o artigo pode servir como uma fagulha para que os seus esforços voltem a fazer sentido. O relato pessoal e inspirador do Professor Murray Sidman pode servir para te fazer lembrar de algumas consequências prazerosas do seu comportamento enquanto educador, pesquisador, profissional ou aprendiz.

Inicialmente, o autor comenta que na publicação de uma pesquisa não nos é permitido comunicar a emoção, a poesia e a euforia que são produtos da atividade de descoberta; contudo, esses elementos estão entre as mais poderosas consequências do nosso comportamento. Sobre isso, Sidman comenta:

Post2foto1Trecho 1 – Passagem extraída do artigo de Sidman The Analysis of Behavior: What’s in it for us? (2007), p.308, traduzida pela autora.

De fato, talvez uma das partes mais legais de fazer pesquisa é quando se começa a enxergar padrões e relações nos dados coletados. Momentos “ah-há!” costumam fazer valer todo o esforço. Assim, Sidman parece apontar a importância das consequências prazerosas produzidas pelo nosso comportamento enquanto estudantes ou pesquisadores. Contudo, sabe-se que as contingências envolvidas no fazer pesquisa são complexas – e nem sempre tão românticas. Quantas vezes já pensamos em desistir de fazer o que gostamos, por estarmos mais envolvidos com outras contingências (como a pressão, a burocracia, a reprovação, o rigor, as exigências e o esforço para desempenhar tal tarefa)? Talvez por isso seja importante lembrar também da emoção, da euforia e do entusiasmo que todo o processo também carrega consigo.

Em seguida, o artigo continua maravilhoso: Sidman relata como ele chegou ao ponto de ter essa visão poética da ciência do comportamento:

Post2foto2Trecho 2 – Passagem extraída do artigo de Sidman The Analysis of Behavior: What’s in it for us? (2007), p.310, traduzida pela autora.           

Felizmente, essa visão é muito comum na área: a profissão de analista do comportamento parece mobilizar pessoas interessadas em mudar o mundo para melhor – ou, pelo menos, melhorar a qualidade de vida das pessoas a seu alcance. Nas palavras de Sidman (2007), essa atuação é, em essência, a definição de cuidado. O autor enfatiza o quanto esse tipo de trabalho pode ser emocionalmente gratificante – por exemplo, ao fazer com que as pessoas desenvolvam hábitos saudáveis, ao curar transtornos ou ao promover a aprendizagem. Na mesma linha, um artigo da PayScale aponta a profissão de analista do comportamento como uma das atuações voltadas para quem procura melhorar o mundo, e cujos profissionais sentem que seu trabalho é significativo e relevante.

O artigo contém outros relatos da experiência pessoal desse grande pesquisador durante sua vida. Mas fecho o presente texto com uma última passagem: Sidman descreve parte de sua trajetória durante suas primeiras descobertas sobre a ciência do comportamento; com sensibilidade, o autor apresenta algumas de suas reflexões e preocupações sociais:

Post2foto3Trecho 3 – Passagem extraída do artigo de Sidman The Analysis of Behavior: What’s in it for us? (2007), p.310, traduzida pela autora.

É o lado ético de Sidman transpirando em mais um de seus textos. A variedade de temas que esse pesquisador já explorou é inspiradora,  e vai desde equivalência de estímulos até terrorismo enquanto questão social (Sidman, 2003). O que consegui reunir aqui é apenas uma pequena parcela das contribuições de Sidman. E o estudo desse pesquisador será concluído na próxima postagem.

Como você tem ajudado a mudar o mundo para melhor?

Referências:

Fellows of ABAI – Murray Sidman. Disponível em https://www.abainternational.org/constituents/bios/murraysidman.aspx

Fonte da Figura 2 – Site da Carlos Livraria. Disponível em http://www.carloslivraria.com.br/coerc-o-e-suas-implicacoes.html

PayScale (sem data). Best Jobs for Do-Gooders. Disponível em http://www.payscale.com/data-packages/best-jobs/do-gooders

SABA Award winners – Distinguished Service to Behavior Analysis: Murray Sidman. Disponível em http://saba.abainternational.org/awards/distinguished-service-to-behavior-analysis/murray-sidman/

SABA Award winners – Impact of Science on application: Murray Sidman. Disponível em http://saba.abainternational.org/awards/scientific-translation/murray-sidman/

SABA Award winners – International Dissemination of Behavior Analysis. Disponível em http://saba.abainternational.org/awards/International-Dissemination-of-Behavior-Analysis/?SATypeID=IDBA

Sidman, M. (2003). Introduction: Terrorism as Behavior. Behavior and Social Issues, 12, pp.83-89.

Sidman, M. (2007). The Analysis of Behavior: What’s in it for us? Journal of the Experimental  Analysis of Behavior, 2007, 87, pp.309-316, Number 2 (March).

Todorov, J. C.; Hanna, E. S. (2010). Análise do Comportamento no Brasil. Psicologia: Teoria e Pesquisa, Vol. 26 n. especial, pp. 143-153.


Leia mais sobre o Desafio Número 13:
Hobbies: um bem necessário


Leia mais sobre o Projeto a Fonte e a Ponte e a Análise do Comportamento:
a Apresentação
o Início dos Resultados
Por que eu deveria aprender sobre a ciência do comportamento?
as Profundezas do Método