Quatorze: Dr. A. Charles Catania, Parte 2

Em uma postagem anterior (Parte 1), foram apresentados os resultados do estudo de algumas produções de A. Charles Catania. Na sequência, serão relatados os resultados do contato com o profissional.

O primeiro contato foi feito antes do Encontro da ABAI que aconteceu em maio em Chicago. Catania comentou que seu Departamento estava fazendo mudanças, e que estava mudando seus pertences de lugar e se preparando para o Encontro da ABAI. Muito gentilmente, perguntou se eu iria para o Encontro e aceitou participar do Projeto com o envio das respostas e com a autorização para divulgação no blog; no entanto, devido às circunstâncias, relatou que poderia responder as perguntas com mais calma apenas em junho. Assim, reestabelecemos contato em meados do mês combinado, de modo que o pesquisador enviou suas respostas para as seguintes perguntas:

1) Por que sou um analista do comportamento?

2) Quais são as habilidades mais importantes que todo analista do comportamento experimental deveria desenvolver e por quê? 

Relato na sequência (em português e em inglês) as respostas do Professor.

“Cara Fernanda,

Essas não são perguntas rápidas ou fáceis. Qualquer uma poderia justificar um capítulo ou até um livro!

Eu sou um analista do comportamento em parte porque eu tenho um interesse pela ciência que remonta aos meus primeiros dias enquanto estudante, quando eu lia tanto trabalhos de não ficção de uma filial da biblioteca pública de Nova York, quanto eu lia muita ficção científica, e em parte por uma série de acidentes de sorte, incluindo cursar a matéria de psicologia introdutória de Fred Keller. Uma importante parte de tudo isso é que eu achava o comportamento um assunto fascinante por si mesmo, e não porque parecia uma ferramenta para outros propósitos, como resolver problemas humanos específicos.

Penso que também foi importante que o comportamento verbal estava incluído como uma parte importante dessa ciência até mesmo em meu contato mais remoto com ela.

Quanto às habilidades: trabalhe com a Matemática até que você se sinta confortável com ela, fique próximo dos dados, e leia não só a literatura da Análise do Comportamento como também literatura de outras ciências relacionadas (especialmente Biologia). E esteja sempre preparado para trabalhar duro para isso.

Espero que você ache esses comentários úteis.”

Para tentar eliminar qualquer viés ou limitação da tradução – ou para quem preferir ler em inglês –  apresento abaixo as perguntas e as respostas originais:

Questions:

1) Why are you a Behavior Analyst?

2) What are the most important skills every experimental behavior analyst should develop and why?

Answers:

“Dear Fernanda,

These are neither quick nor easy questions.  Either could justify a chapter or even a book!
I am a behavior analyst in part because I have an interest in science that goes back to my early student days, when I read both nonfiction works from a nearby branch of the NYC public library and lots of science fiction, and in part because of a series of lucky accidents, including taking Fred Keller’s introductory psychology course.  An important part of all this is that I found behavior a fascinating subject for its own sake, and not because it seemed a tool for other purposes, such as solving specific human problems.
I think it also mattered that verbal behavior was included as a major part of this science even in my very earliest contact with it.
As for skills: work at mathematics so that you are comfortable with it, stay close to the data, and read not only the behavior analysis literature but also the literature from related sciences (especially biology).  And be prepared always to work very hard at it.
I hope you’ll find these comments helpful.”

O que achou das respostas de Catania? Deixe sua mensagem (em português ou em inglês, no modo privado ou público – mais informações em Contato) para o profissional; alguns feedbacks serão reunidos, traduzidos e enviados para A. Charles Catania, para que ele também tenha contato com o produto final de sua valiosa participação no Projeto.

Pesquisador Número 14 concluído! Na próxima postagem, apresento um prólogo sobre o assunto estudado pelo próximo pesquisador.


Leia mais sobre o Desafio Número 14:
O cientista enquanto leitor
Quatorze: Dr. A. Charles Catania, Parte 1


Leia mais sobre o Projeto a Fonte e a Ponte e a Análise do Comportamento:
a Apresentação
o Início dos Resultados
Por que eu deveria aprender sobre a ciência do comportamento?
as Profundezas do Método

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Quatorze: Dr. A. Charles Catania, Parte 1

E o décimo quarto pesquisador do Projeto é o Professor Doutor A. Charles Catania (University of Maryland, Baltimore County – UMBC; Baltimore, Maryland/EUA). De acordo com o site da ABAI, Catania é uma das maiores figuras na história da Análise do Comportamento, reconhecido por contribuir para os domínios experimental e aplicado; o pesquisador trabalha com temas como esquemas de reforçamento, escolha, timing, comportamento verbal, análise quantitativa e biologia evolutiva. Entre seus professores estão Fred S. Keller e B. F. Skinner. Catania se define como um “Analista do Comportamento e Psicólogo Experimental com interesses especiais em aprendizagem, esquemas de reforçamento e a análise do comportamento verbal” (site do Department of Psychology – UMBC).

2005CataniaFoto 1– A. Charles Catania (Fonte: site da ABAI)

É difícil economizar palavras para descrever Catania. Admiro sua preocupação em cuidar e aprimorar a Análise do Comportamento em toda a sua trajetória. E acho uma delícia ler seus textos: em um estilo elegante, Catania demonstra cuidado, gentileza e precisão com os conceitos da ciência do comportamento.

Com o propósito de sumariar as contribuições desse pesquisador para a ciência no presente Projeto, limito-me aqui a apontar 2 agradáveis publicações de A. Charles Catania que tive contato.

1. Livro “Aprendizagem: Comportamento, Linguagem e Cognição”

Os artigos acadêmicos que me perdoem, mas os livros acadêmicos tem um charme especial. Oferecem mais páginas para se deliciar, além do suspense capítulo a capítulo com o aumento da complexidade dado o efeito cumulativo de informações sobre o tema. O que dizer da quantidade de referências e conteúdos que um livro-texto consegue reunir, revisar e sintetizar? Um livro para carregar na mochila, companheiro no caminho do ônibus ou em um café perto da universidade.

E o livro Aprendizagem: Comportamento, Linguagem e Cognição não é exceção – a publicação reúne tudo de melhor que um livro-texto pode oferecer. Certamente um dos meus livros preferidos de todos os tempos e espaços. O prefácio já anuncia a preocupação com o rigor ao citar o poeta Alexander Pope, com uma passagem que pode ser traduzida como “Um aprendizado pequeno é uma coisa perigosa: Beba profundamente, ou não experimente…”. O livro é uma fonte consistente e cuidadosa, que criativamente organiza os principais temas estudados na Análise do Comportamento em duas grandes categorias: aprendizagem sem palavras e aprendizagem com palavras. Além disso, a publicação parece ter as qualidades do pesquisador: ao lê-la, é possível ver que foi escrita por uma pessoa interessada em análise experimental (há muito de história da área, contada também por meio de figuras e gráficos legais), comportamento verbal (as notas etimológicas no começo de alguns capítulos são um detalhe especial) e biologia evolutiva (a seleção Darwiniana perpassa diversos capítulos). Sorte que o livro, já em sua quinta edição (2013), tem a quarta edição (1998/1999) muito bem traduzida para o português.

catania_livro_aprendizagemFigura 1 – Livro Aprendizagem: Comportamento, Linguagem e Cognição (Fonte: Amazon)

catania_learning_capaFigura 2 – Meu livro Learning, quarta edição (Foto: Fernanda Oda)

catania_livro_learning5th
Figura 3 – Livro-desejo: Learning, quinta (e última) edição (Fonte: Amazon)

2. Memórias do JEAB

O volume 48(3) da edição de 1987 do JEAB é especial: comemora-se os 30 primeiros anos do JEAB com a reunião de algumas memórias ou reminiscências da revista escrita por grandes autores (em inglês, “Reminiscences of JEAB”). Catania foi editor no período 1967-1969, e seu relato sobre essa fase é incrível. Em um texto curto e singelo, o autor relata como o convite para ser editor surgiu. Com muita humildade e humor, comenta que ficou surpreso quando recebeu tal convite em uma época em que seu título de doutor ainda era recente, mas que só depois ficou sabendo que uma meia dúzia de pessoas haviam recusado o convite antes de oferecerem a posição de editor para ele. 

Uma outra parte legal dessas memórias escritas por Catania é quando relata sua preocupação com o comportamento verbal da comunidade científica enquanto editor. Uma dessas preocupações já foi mencionada pelo pesquisador em 1969, nesse maravilhoso trecho:

Post46foto2Trecho 1 – Passagem extraída do texto de Catania n the vocabulary and the grammar of behavior (1969).

Nessas “memórias do JEAB” o pesquisador relata, por exemplo, que ao ler os textos de Fred S. Keller e Schoenfeld percebeu a consistência dos autores em se falar em “reforçar respostas” e não “reforçar organismos”, enquanto nos escritos de Skinner da época as duas descrições pareciam estar presentes de modo menos consistente (por exemplo, “reforçar a resposta de pressionar a barra” e “reforçar o rato”). Ao discutir essa questão com alguns analistas do comportamento, Catania relata que a a primeira opcão (“reforçar respostas”) pareceu preferível – entre outros motivos, essa opção parece deixar menos provável que a resposta seja omitida na descrição das contingências (Catania, 1987), além de que parece fazer mais sentido, visto que a operação de reforçamento se aplica a respostas específicas (Catania, 1969), assim como acontece também com a modelagem e a punição (nesse lógica, analogamente falaria-se em “punir respostas das pessoas”, e não “punir pessoas”).

Bom, essa história da discussão entre “reforçar respostas” e “reforçar a pessoa” já estava interessante, mas Catania ainda apresenta em seu texto uma situação que ocorreu ao revisar um artigo do JEAB que foi enviado por… B. F. Skinner. Sim, lá estava Skinner submetendo um artigo para ser publicado no JEAB, e Catania lendo o texto, onde esse tipo de questão aparecia (“o rato era reforçado”). Não sem preocupação Catania envia uma carta para Skinner apontando sua análise dos usos dos termos e sua sugestão de mudança, além da lógica e da argumentação em favor do “reforçar respostas”. Por fim, Catania relata que sua preocupação era vã, pois Skinner aceitou com facilidade a sugestão, dizendo também algo como “uma pessoa tem que acompanhar os tempos” (em inglês, “one has to keep up with the times”). Ainda, Catania relata que é possível perceber nos textos de Skinner (após esse evento) a aderência do autor pela proposta.

Post46foto1Trecho 2 – Passagem extraída do texto de Catania Editorial Selection (1987).

Além dessas publicações, outras dezenas de textos de Catania valem à pena a leitura. A título de informação, vale (re)ler: 1) “A Quantitative Analysis of the Responding Maintained by Interval Schedules of Reinforcement” (1968) – provavelmente um dos artigos mais citados do JEAB; 2) “Some Darwinian Lessons for Behavior Analysis: A Review of Bowler’s the Eclipse of Darwinism” (1987), onde Catania descreve muito bem a seleção natural; 3) “Antecedents and Consequences of Words” (2006), pois Catania também tem o dom de analisar o comportamento verbal de uma forma clara; e 4) “The Watershed Years of 1958–1962 in Harvard Pigeon Lab” (2002), para quem gosta de história e quer conhecer mais sobre o famoso “Harvard Pigeon Lab”, onde muito da Análise do Comportamento foi produzido de forma abundante.

Resumindo essa postagem, gostaria de ter tempo no futuro para passar mais dias lendo e aprendendo com Catania. No próximo texto, o contato estabelecido com o pesquisador será apresentado.

Referências:

Catania, A. C. (1968). A Quantitative Analysis of the Responding Maintained by Interval Schedules of Reinforcement. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 11, pp.327-383, Number 3 (May), Part 2.

Catania, A. C. (1969). On the vocabulary and the grammar of behavior. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 12, pp.845-846.

Catania, A.C. (1987). Editorial Selection. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 48, pp.481-483, Number 3 (November).

Catania, A.C. (1987). Some Darwinian Lessons for Behavior Analysis: A Review of Bowler’s the Eclipse of Darwinism. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 47, pp.249-257 Number 2 (March).

Catania, A. C. (1998/1999). Aprendizagem: Comportamento, Linguagem e Cognição. Porto Alegre: ARTMED Editora.

Catania, A.C. (2002). The Watershed Years of 1958–1962 in Harvard Pigeon Lab. Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 77, pp. 327–345, Number 3 (May).

Catania, A.C. (2006). Antecedents and Consequences of Words. The Analysis of Verbal Behavior, 22, pp.89-100.

Fellows of ABAI – A. Charles Catania. Disponível em https://www.abainternational.org/constituents/bios/charlescatania.aspx

Fonte da Figura 1: https://www.amazon.com/Aprendizagem-Comportamento-Linguagem-Charles-Catania/dp/8573075538

Fonte da Figura 3: https://www.amazon.com/Learning-Fifth-Charles-Catania/dp/B00CRWBYV8

Site do Department of Psychology, UMBC – A. Charles Catania. Disponível em http://psychology.umbc.edu/people/emeritus-faculty/catania/


Leia mais sobre o Desafio Número 14:
O cientista enquanto leitor


Leia mais sobre o Projeto a Fonte e a Ponte e a Análise do Comportamento:
a Apresentação
o Início dos Resultados
Por que eu deveria aprender sobre a ciência do comportamento?
as Profundezas do Método