Sete: Dr. Nathan H. Azrin, Parte 1

O sétimo pesquisador do Projeto é o Professor Doutor Nathan H. Azrin (Nova Southeastern University, Fort Lauderdale, Florida/EUA). De acordo com o site da ABAI, o pesquisador contribuiu “desde a pesquisa básica em controle aversivo, esquemas de reforçamento, e comportamento verbal até a experimentação aplicada no tratamento da enurese, tiques, e outros comportamentos problemáticos, estigmatizados, e mal-adaptativos”. Seu trabalho na condução de experimentos no Hospital Anna State também ficou conhecido, onde criou o Behavior Research Lab e desenvolveu juntamente com Teodoro Ayllon a prática de “Economia de Fichas” – em inglês, Token Economy (mais informações sobre essa estratégia pode ser lida em Lima/Caetano, 2012). Outra contribuição para a área aplicada é a disseminação de conhecimento e prática no treino de toalete, que resultou no livro (escrito juntamente com R. M. Foxx) “Toilet Training in Less Than a Day” (1989), que teve mais de 2 milhões de cópias vendidas. Azrin contribuiu para a fundação de revistas importantes da Análise do Comportamento nos EUA e também para a fundação da ABAI.

2005AzrinFigura 1– Nathan H. Azrin (Fonte: site da ABAI)

Outro marco na história da Análise do Comportamento é a publicação do primeiro artigo experimental de Azrin sobre Punição em 1956:”Some effects of two intermittent schedules of immediate and non-immediate punishment“. É sobre esse artigo clássico e histórico que a presente postagem irá tratar.

Resenha do artigo “Alguns efeitos de dois esquemas intermitentes de punição imediata e não imediata” (1956), de Nathan H. Azrin

O Contexto

O presente artigo resenhado é o primeiro de uma série de publicações de Nathan Azrin sobre a Punição. Anteriormente à data de lançamento do artigo de Azrin em 1956, outros pesquisadores (e.g. Estes, 1944; Gibson, 1952; Hunt & Brady, 1951) publicaram pesquisas relacionadas a choques ou punição; Campbell e Skinner publicaram em 1947 um artigo (“An automatic shocking-grid apparatus for continuous use“), o qual fundamentalmente descreve um aparato que liberava choque, e relata brevemente a utilização do aparato em tentativas de condicionamento da resposta de ratos de pressão à barra para a eliminação de choque (Campbell & Skinner, 1947, p.307). Skinner faz considerações sobre a Punição em 1953 no livro Science and Human Behavior, onde dedica um capítulo para a temática; nessa obra interpretativa, o autor comenta que a “teoria da punição” poderia ser datada pelas mudanças nas teorias de Thorndike (Skinner, 1953, p.183) – para mais informações sobre a influência do trabalho de Thorndike para a construção terminológica do controle aversivo, ler Gongora, Mayer & Mota (2009).

Ainda para fins de contextualização, Nathan Azrin publicou seu artigo aos 26 anos de idade – quando estava fazendo sua pós-graduação em Harvard, onde Skinner tinha voltado a lecionar em 1948. A biografia de Skinner escrita pela B.F. Skinner Foundation aponta as décadas de 1950 e 1960 como produtivas, devido aos excelentes estudantes de pós-graduação que Skinner teve contato:  além de Azrin, outros estudantes são apontados: Anger, Anliker, Blough, Catania, Gollub, Herrnstein, Israel, Lagmay, Lane, Lindlsey, Morse, Peterson, Reynolds e Terrace.

Em síntese, os dados indicam que Azrin publicou seu artigo em um contexto em que a fundação de uma ciência baseada na seleção por consequências já estava sendo edificada, mas que a Análise do Comportamento ainda estava florescendo como campo científico; cabe notar, por exemplo, que o artigo foi publicado no The Journal of Psychology em 1956 – dois anos antes do nascimento do Journal of the Experimental Analysis of Behavior (JEAB) em 1958. ainda, seu ambiente estava repleto de pessoas interessadas em obter mais conhecimento sobre diversos processos comportamentais; ainda, as pesquisas sobre Punição sofriam consideráveis influências das teorias de Thorndike. 

O Artigo

Essencialmente, a publicação é dividida em três partes: (A) Introdução, onde o autor expõe o contexto do problema, que envolve os dados obtidos em um experimento sobre punição realizado por Estes em 1944; (B) Método, onde aparato, sujeito e procedimentos utilizados por Azrin para seus experimentos são descritos; e (C) Resultados e Discussão, onde dados obtidos a partir dos seus experimentos divergem dos dados obtidos por Estes (1944), mas que se mostram mais coerentes com os princípios da aprendizagem operante.

Como o próprio título denota, o artigo experimental tem enfoque na investigação de relações temporais entre a resposta e a consequência aversiva, apresentada imediatamente ou não, e em diferentes esquemas. O contexto dessa apuração é uma pesquisa de Estes (1944), que apresentou dados que indicavam que a “punição imediata” (ou seja, a apresentação da consequência sem atraso) não era mais efetiva que a “punição não imediata” (com atraso). A partir desses dados, Azrin desenvolve experimentos para tentar verificar tal resultado controverso, visto que a imediaticidade da consequência parece ser um fator crítico nesses estudos. Nas palavras de Azrin, “Em experimentos com estímulos aversivos, como um choque elétrico, a relação temporal entre o choque e as respostas é frequentemente crítica. Isso parece ser especialmente verdade para os procedimentos de punição, fuga e esquiva (…). No entanto, Estes reportou alguns achados que indicam que um estímulo aversivo não é mais efetivo quando esse segue imediatamente as respostas (punição imediata) do que quando esse é independente das respostas (punição não imediata). Considerando que os achados de Estes não concordam absolutamente com os achados de outros experimentos, parte dessa investigação foi dirigida para a questão de saber se a punição imediata é mais, ou menos, efetiva que a punição não imediata.” (Azrin, 1956, p.19).

A fim de investigar a efetividade da punição em diferentes relações temporais, Azrin utiliza diferentes esquemas intermitentes; o autor comenta que a produção de padrões característicos por esquemas diferentes é verificada no estudo de reforçamento positivo; assim, como o esquema pode influenciar o padrão de respostas, Azrin se propõe a testar as diferentes relações temporais sob diferentes esquemas intermitentes – no caso, o autor utilizou esquemas de intervalo fixo e de intervalo variável. 

Os sujeitos experimentais eram pombos Carneaux, que participaram de sessões com durações de três horas. O aparato utilizado para a condução dos experimentos consistia em uma caixa experimental cujos componentes incluíam: i) uma câmara (onde o pombo permanecia durante o experimento); ii) uma chave (que poderia ser iluminada com diferentes cores), a qual era acessível para o pombo; quando bicada, um circuito fechava, permitindo o registro da resposta em um registro cumulativo; iii) uma abertura abaixo da chave, onde uma bandeja com comida poderia passar; e iv) um chão com barras de aço inoxidável, conectadas a um circuito elétrico para liberação de choque.

O procedimento preliminar consistiu em mais de 100 horas de condicionamento de bicada na chave em um intervalo variável de 3 minutos, tendo a comida como o reforçador; nessa etapa, a intensidade de choque apropriada foi estabelecida. Após essa etapa, o procedimento geral foi implementado: um esquema de intervalo variável e um esquema de intervalo fixo, em condições de “punição imediata” e de “punição não imediata”. O choque era apresentado diante de um estímulo luminoso de uma cor específica que servia de alerta, o qual era alternado para uma outra cor em condições de não apresentação de estímulo aversivo. 

Finalmente, os resultados indicaram que a “punição imediata” foi mais efetiva para reduzir o número de respostas, para todos os pombos, e em condição de esquema de intervalo fixo ou variável. O autor conclui: “(…) esses resultados mostram que a efetividade do estímulo aversivo depende da relação temporal entre a resposta e esse estímulo aversivo.” (Azrin, 1956, p.20).

Alguns comentários

Estudos que buscam investigar processos comportamentais ou suas propriedades ou características são comuns na área. A Punição continua sendo foco de estudo dos pesquisadores atualmente, ainda que o número de pesquisas na área experimental e aplicada tenha decaído nos últimos anos (Lerman & Vorndran, 2002). 

Em particular, o presente artigo de Azrin de 1956 parece abrir caminho para uma interpretação de simetria entre reforçamento e punição; observemos o seguinte trecho: “Os padrões de resposta produzidos por esses dois esquemas de estímulos aversivos são análogos àqueles padrões produzidos por procedimentos similares utilizando reforçamento positivo, mas a direção da mudança é reversa.” (Azrin, 1956, p.20). Os termos utilizados por Azrin (“análogos”, “direção reversa” ou “direção oposta”) para analisar os dados obtidos nos experimentos podem indicar uma possível inclinação do autor para a disposição de uma simetria entre reforçamento e punição já em 1956. É sabido que dez anos mais tarde, em 1966, Azrin e Holz escreveriam sobre a Punição; tal notável publicação (amplamente citada na área de estudo sobre a Punição) é interpretada como uma formulação alternativa à apresentada por Skinner (Mayer & Gongora, 2011; Silva, Carvalho Neto & Mayer, 2014); nas palavras de Mayer e Gongora, a formulação de Azrin e Holz pode ser vista como “(…) uma formulação comportamental diferente da skinneriana (…). Nessa formulação, punição é definida em termos funcionais” (Mayer & Gongora, 2011). Convém destacar que o conceito de assimetria ou simetria de processos já foi tema de uma postagem anterior.

Finalmente, é possível salientar um último aspecto do estudo conduzido por Azrin em 1956. Em seus experimentos, os efeitos do choque em uma intensidade específica foi estudado. No entanto, cabe notar que atualmente o estudo de efeitos, dimensões ou intensidades de outros estímulos aversivos que não o choque são também foco de análise; por exemplo, na área aplicada tem-se estudos envolvendo limitação física, cheiros desagradáveis e time-out; no domínio experimental, por exemplo, Rodrigues, Nascimento, Cavalcante e Carvalho Neto (2008) analisaram os efeitos da Punição utilizando Jatos de Ar Quente em diferentes intensidades e dimensões.

Referências:

Azrin, N. H. (1956). Some effects of two intermittent schedules of immediate and non-immediate punishment. The Journal of Psychology: Interdisciplinary and Applied, Vol 42, 1956, 3-21.

B. F. Skinner Foundation – Biographical Information. Disponível em http://www.bfskinner.org/archives/biographical-information/

Campbell, S. L.; Skinner, B. F. (1947). An automatic shocking-grid apparatus for continuous use. Journal of Comparative and Physiological Psychology, 1947, 40, 305-307.

Fellows of ABAI – Nathan H. Azrin. Disponível em https://www.abainternational.org/constituents/bios/nathanazrin.aspx

Gongora, M. A. N.; Mayer, P. C. M.; Mota, C. M. S. (2009). Construção terminológica e conceitual do controle aversivo: período Thorndike-Skinner e algumas divergências remanescentes. Temas em Psicologia, Vol.17, N.1, pp.209-224.

Lerman, D.; Vorndran, C. M. (2002). On the status of knowledge for using punishment: implications for treating behavior disorders. Journal of Applied Behavior Analysis, 35, pp.431–464, Winter.

Lima, A. de M./ Caetano, E. (2012). Economia de Fichas: definição e aplicação. Disponível em http://www.comportese.com/2012/03/economia-de-fichas-definicao-e-aplicacao/

Mayer, P. C. M.; Gongora, M. A. N. (2011). Duas Formulações Comportamentais de Punição: Definição, Explicação e Algumas Implicações. Acta Comportamentalia, Vol.19, Monográfico, pp.47-63.

Rodrigues, B. D.; Nascimento, G. S. do; Cavalcante, L. C.; Carvalho Neto, M. B. de (2008). Efeitos da punição de uma classe de respostas usando diferentes dimensões e intensidades do jato de ar quente.  Revista Brasileira de Análise do Comportamento, Vol.4, n.2, pp.231-241.

Silva, G. F.; Carvalho Neto, M. B. de; Mayer, P.C. M. (2014). O jato de ar quente como estímulo aversivo antecedente. Acta Comportamentalia, Vol.22, n.2, pp.135-151.


Leia mais sobre o Desafio Número 7:
Por que eu deveria aprender sobre a Punição?


Leia mais sobre o Projeto a Fonte e a Ponte e a Análise do Comportamento:
a Apresentação
o Início dos Resultados
Por que eu deveria aprender sobre a ciência do comportamento?
as Profundezas do Método

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