Uma Metáfora para o Mentalismo

Atividades científicas encontram-se fundamentadas por um conjunto de pressupostos sobre seu objeto de investigação e sobre o método considerado adequado para investigá-lo (Dittrich, 2004). A Análise do Comportamento, que se propõe como ciência, não se constitui como exceção: sobre o comportamento humano (O que é?, Como é?, Como pode/deve ser estudado?) muito já se percorreu, e as práticas na área estão em íntima relação com os fundamentos – ou filosofia – do que se declara constituir o comportamento. Parte das produções do campo da Análise do Comportamento abrangem reflexões e discussões sobre o Behaviorismo Radical, a filosofia da ciência do comportamento “que reflete sobre o objeto, os objetivos e os métodos.” (Tourinho, 1999). E um dos aspectos apontados por essa filosofia é a crítica ao Mentalismo. Dentre tantos Behaviorismos e Mentalismos, Carvalho Neto (2001) bem ensina: “Não possuindo sentidos puros que produzam obrigatoriamente um antagonismo excludente, Behaviorismo e Mentalismo precisam ser descritos com cuidados adicionais, deixando sempre muito bem especificado o que exatamente seria defendido em cada uma das versões e porquê.” (Carvalho Neto, 2001, p.45).

Nem de defesas tampouco de porquês o presente texto tratará com detalhes; intermináveis, as questões filosóficas envolvendo o Behaviorismo Radical são históricas e diversificadas. No presente texto, de forma breve, apenas um aspecto do que poderia se denominar Mentalismo será ressaltado, seguido de uma metáfora que encontrei ao ler o posfácio de um livro do escritor Vladimir Nabokov.

Apenas para fins de exposição da metáfora, Mentalismo pode ser definido como “uma abordagem para o estudo do comportamento que assume que uma dimensão mental ou ‘interna’ existe a qual difere da dimensão comportamental.” (Moore, 2003). De outro modo (mas não com menos complicações), o Mentalismo constitui-se como “uma orientação particular para a explicação do comportamento, envolvendo os seguintes aspectos implícitos ou explícitos: (a) a bifurcação da experiência humana em uma dimensão comportamental e uma dimensão pré-comportamental, (b) o uso de termos psicológicos para se referir a entidades organocêntricas da dimensão pré-comportamental, e (c) o uso das entidades organocêntricas como antecedentes causalmente efetivos para explicar o comportamento.” (Moore, 1981). Em oposição, críticas ao Mentalismo podem versar, por exemplo, sobre (a) a não-divisão da experiência humana em dimensões ou naturezas diferentes, visto que o “mundo encoberto (pensamentos, imagens, crenças, regras etc.) não tem uma segunda natureza; é também manifestação do organismo – como tal, atividade natural – da mesma natureza que os comportamentos públicos.” (Guilhardi, 2015); em outras palavras, “a ‘atividade mental’ passa a ser vista e estudada como comportamento. Abandona-se a ideia de um agente interno, a mente, única responsável pelo comportamento observável” (Todorov, 2014); (b) o questionamento  do uso de termos psicológicos para fins de explicação desses fenômenos assumidos como não naturais; (c) a asserção de que as relações do organismo com variáveis ambientais são mais efetivas para explicar o comportamento, tornando-o manejável ou acessível à manipulação direta.

O aspecto destacado do Mentalismo nesse texto é sua caracterização como ficção explanatória/explicativa, que pode ser definida como “uma variável fictícia que frequentemente é apenas um outro nome para o comportamento observado que contribui em nada para o entendimento das variáveis responsáveis por desenvolver ou manter o comportamento” e que oferece “um falso senso de entendimento” (Cooper, Heron & Heward, 1987/2007, p. 12). Diante de uma criança que comeu um bolo de chocolate, por exemplo, ao buscar as causas desse comportamento, alguém poderia “explicar” tal fenômeno dizendo que a criança comeu o bolo “porque ela quis”, “porque ela teve vontade”, “porque ela tem pensamentos gordos” ou “porque ela tem uma personalidade impulsiva”. Um crítico do mentalismo, porém, questionaria  a explicação desse comportamento apenas em termos do “querer”, da “vontade”, da “mentalidade” ou da “personalidade” da criança (e como seu próprio fim), e buscaria analisar variáveis ambientais (e possíveis de serem manipuladas na prática para uma mudança efetiva) que poderiam ser relevantes na explicação do comportamento; afinal, a ciência do comportamento tem demonstrado como aspectos do contexto em que o sujeito está inserido regulam seu comportamento.

Mas nem sempre o problema a ser resolvido é o bolo de chocolate que a criança comeu. Na prática, para explicar problemas cotidianos e da humanidade – comportamento depressivo ou violência no trânsito, por exemplo –, estamos pouco tentados a ficar satisfeitos com respostas curtas como “Ele tentou cometer suicídio porque tinha uma mente conturbada” ou “Ela atirou no outro motorista por impulso”. Nota-se que, frequentemente, explicações sobre o comportamento das pessoas produzem consequências práticas – por exemplo, relacionadas à responsabilização de atos prejudiciais ou danosos. Daí talvez a importância de uma análise mais profunda da situação, para tentar encontrar seus reais determinantes, inclusive para a resolução de problemas humanos delicados; ademais, é possível notar como o que pensamos sobre o comportamento – a sua filosofia subjacente – reflete sobre as práticas.

Em tempo: convém compreender que práticas mentalistas e uso de termos mentalistas são produtos de uma história da cultura ocidental (Guilhardi, 2015; Moore, 1981; Todorov, 2o14); cabe salientar também que o mero uso de termos que evocam entidades internas não se constitui como uma prática mentalista – afinal, o discurso cotidiano está repleto de “termos mentais”, que é material a ser considerado (e não ignorado ou repudiado) pelo analista do comportamento. Sobre o uso desses termos, Moore resssaltou: “(…) É especialmente crítico notar que mentalismo é uma forma de se engajar em práticas explanatórias. O uso de qualquer um dos tipos de termos acima por si só não constitui necessariamente mentalismo. Ao invés, é usá-los como explicações que constitui mentalismo.” (Moore, 1981). Nesse mesmo artigo, Moore expõe como a prática mentalista recai também sobre a própria prática científica do analista do comportamento. Ainda, conforme Rocha (2015) parece colocar, a crítica ao Mentalismo pode acabar se tornando um lugar banal, com críticas rasas ou parcas; ressalta que o lugar da “mente” em uma ciência do comportamento é discutível, e a possível defesa desse conceito dentro de uma ciência do comportamento foi discorrida por Lopes e Abib (2003). Pode-se acrescentar nessa discussão ainda que uma crítica rasa ao Mentalismo pode fechar possíveis aberturas de diálogo da Análise do Comportamento com outros campos de conhecimento importantes, como as Neurociências.

Cabe finalmente ressaltar uma possível metáfora para a crítica do Mentalismo como “explicação vazia”. Antes de aprender sobre a Análise do Comportamento, o Mentalismo não me soava tão estranho; parecia realmente uma resposta… confortável. Ao ler o posfácio de um livro escrito por Vladimir Nabokov, eu entendi o porquê. Em um trecho, o escritor fala sobre a atividade de escrever:

Post20foto1Trecho 1 – Passagem extraída no posfácio do livro de Nabokov Lolita (2011).

Nesse parágrafo, Nabokov reconhece que, ao explicar a atividade de escrever, é comum recorrermos a termos como “Inspiração” (“Por que motivos escrevi esse livro? Ah, por inspiração, pois estava inspirado!”). Nabokov consegue identificar essa resposta como obsoleta e circular, a qual não explica em nada o comportamento de escrever, tampouco sua origem.

Aí eu compreendi: nesse sentido, o mentalista é um mágico – um mágico que explica um truque executando outro. É preciso esforço para desvendar o truque; e um novo truque pode ser reconfortante. Mas para uma ciência do comportamento – sendo o objeto de estudo (tão complexo) já obscurecido por tantas cartolas e panos –, não precisamos de mais panos para encobrir o problema: precisamos tentar descobri-lo.

Na próxima postagem, o sexto pesquisador do Projeto será apresentado. Suas contribuições no que diz respeito aos seus esforços filosóficos são reconhecidas, além de seu notável livro sobre a filosofia da ciência do comportamento – amplamente conhecido, inclusive em sua versão traduzida para o português.

Referências:

Carvalho Neto, M. B. de (2001). B. F. Skinner e as Explicações Mentalistas para o Comportamento: Uma Análise Histórico-Conceitual (1931-1959). São Paulo, 388 páginas. Tese de Doutorado apresentada ao Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo.

Cooper, J. O.; Heron, T. E.; Heward, W. L. (1987/2007). Applied Behavior Analysis. 2nd Edition. Pearson Education, Inc.

Dittrich, A. (2004). Behaviorismo radical, ética e política: aspectos teóricos do compromisso social. São Carlos: UFSCar, 2004. Tese de Doutorado.

Guilhardi, H. J. (2015). Mentalismo e Behaviorismos. Disponível em http://www.itcrcampinas.com.br/txt/mentalismo.pdf

Moore, J. (1981). On Mentalism, Methodological Behaviorism, and Radical Behaviorism. Behaviorism, , Vol.9, No.1 (Spring), pp.55-77.

Moore, J. (2003). Behavior Analysis, Mentalism, and the Path to Social Justice. The Behavior Analyst, 26, pp.181-193, No.2 (Fall).

Nabokov, V. (2011). Lolita. Alfaguara Brasil Editora, Edição 1: Rio de Janeiro.

Rocha, C. A. A. da (2015). 10 artigos teóricos sobre análise do comportamento para desbanalizar o banal. Disponível em https://questaodeacaso.wordpress.com/2015/05/03/10-artigos-teoricos-sobre-analise-do-comportamento-para-desbanalizar-o-banal/

Todorov, J. C. (2014). Cognitivo é o novo mental? Disponível em http://jctodorov.blogspot.com.br/2014/07/cognitivo-e-o-novo-mental.html

Tourinho, E. Z. (1999). Estudos conceituais na análise do comportamento. Temas em Psicologia, Volume 7, Número 3, pp.213-222.

Post2foto4(Foto: Fernanda Oda)


Leia mais sobre o Desafio Número 6:
Seis: Dr. William M. Baum, Parte 1
Dr. William M. Baum, Parte 2


Leia mais sobre o Projeto a Fonte e a Ponte e a Análise do Comportamento:
a Apresentação
o Início dos Resultados
Por que eu deveria aprender sobre a ciência do comportamento?
as Profundezas do Método

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