Como promover a Motivação a partir de uma perspectiva científica?

Post26foto1Trecho 1 – Passagem extraída do livro de Nassar Lavoura Arcaica, pp.98-99 (1975/1989).

Talvez não exista trecho mais bonito que descreva o conceito de Motivação para mim. O escritor brasileiro Raduan Nassar, com sua intensa sensibilidade que lhe é peculiar, habilmente apresenta essa imagem que retrata algumas das nuances do comportamento humano nessa notável obra literária.

No exemplo, o menino, que brinca de capturar pombas, está sensível a variáveis ambientais (como a quantidade de grãos, a carência ou a fartura que podem produzir desânimo na ave, ao tempo e ao momento exato para agir para que a pomba não escape) e as arranja. Nessa perspectiva, a brincadeira é uma ciência: envolve observação, precisão e sensibilidade a inúmeros fatores para manter a pomba motivada, a fim do menino poder capturá-la. A brincadeira do menino é uma metáfora para a conquista de uma pessoa desejada pelo personagem: no caso, o processo de conquista da mulher amada é uma ciência – é preciso agir no momento preciso e na quantidade precisa, para que ela não encontre o desânimo na carência nem na fartura, mantendo-a constantemente motivada.

Nesse sentido, para o analista do comportamento, promover a Motivação também é uma ciência. Como o próprio título da postagem pode sugerir, a Motivação não é algo inacessível para uma ciência do comportamento.

Post26foto2Trecho 2 – Passagem extraída do artigo de Postalli, Almeida, Canovas & Souza Ensino de reconhecimento de palavras no contexto da leitura de histórias infantis (2008).

Post26foto3Trecho 3 – Passagem extraída do texto de Rodrigues Motivação: o que é e como implementar (2011).

A partir da perspectiva de uma ciência do comportamento, a Motivação pode ser observada, estudada e manejada; desse modo, a Motivação não é interpretada como algo inerente ao indivíduo, inata ou fatalista – para a Análise do Comportamento, quem dita seu tom é o (arranjo do) ambiente. Assim, as respostas para algumas possíveis perguntas sobre esse tema – Por que me sinto (des)motivado? Como compreender minhas vontades? O que determina meus interesses? O que determina meu engajamento em atividades? – encontram-se na análise de contingências de reforçamento históricas e atuais do indivíduo. Como algo não inerente a uma pessoa, para uma ciência do comportamento qualquer indivíduo pode ser motivado – basta que se conheçam as variáveis ambientais relevantes  das quais o comportamento é função. Consequentemente, a partir dessa abordagem, todos somos capazes de aprender a nos comportar em direção à conquista de um objetivo, seja ele pessoal ou profissional. Em suma, qualquer pessoa pode se sentir motivada, desde que as condições estejam arranjadas.

Ainda, como algo observável e mensurável, a Motivação pode ser manejada e planejada para diversos fins, e é tema corrente em diversos contextos. Por exemplo, no processo de psicoterapia e coaching, a “falta de motivação” pode vir como queixa de muitos clientes que buscam mudanças em suas vidas; em contexto de orientação profissional, a busca por interesses do indivíduo é avaliada; no trabalho com o Autismo, o planejamento de contingências para ensino de habilidades também envolverá a análise de preferências e reforçadores para promover um engajamento na aquisição dessas habilidades; no contexto Organizacional, a demanda por intervenções para a promoção de “Motivação” nos funcionários é frequentemente requerida; na área da Educação, a programação do processo de ensino-aprendizagem (idealmente) também terá como foco o estabelecimento de engajamento por parte do aprendiz.

Post26foto4Trecho 4 – Passagem extraída do artigo de Aloi, Haydu & Carmo Motivação no ensino e aprendizagem: algumas contribuições da análise do comportamento (2014).

Post26foto5Trecho 5 – Passagem extraída do texto de Zampieri O que a análise de contingências pode nos ensinar sobre motivação – Parte 1 (2015).

Assim como no exemplo do menino que brinca de capturar pombas, em diversos contextos a análise de diferentes variáveis ambientais são levadas em consideração. Quando dizemos que não nos sentimos “motivados” (com nossas relações pessoais, com o trabalho, ou com nossa rotina) ou quando falamos que estamos desanimados ou não sentimos  mais “vontade” (de se engajar em atividades), cabe questionar alguns fatores ambientais que podem estar influenciando o que chamamos de Motivação: O que desejamos? Com que frequência temos acesso às coisas que desejamos? Com que frequência não temos acesso às coisas que desejamos? Quando isso está disponível? Como é essa disponibilidade? A disponibilidade é farta demais ou escassa demais? Que fatores fazem eu “querer mais”? Que fatores fazem eu “querer menos”? Tais questionamentos são analisados sob a luz da função do comportamento.

Retomando a questão que abriu o texto: Como promover a Motivação? A partir dessa perspectiva, uma prática efetiva para promover a Motivação poderá envolver o conhecimento, a análise e a programação de variáveis ambientais. O conhecimento poderá ser buscado através da observação, da definição e da mensuração do comportamento de interesse; a análise considerará a função da resposta e as relações entre as variáveis relevantes; e a programação poderá envolver um planejamento do arranjo das variáveis ambientais para promoção do comportamento desejável. 

Portanto, nota-se que o conceito de Motivação pode ser estudado a partir de uma perspectiva científica, a qual leva em consideração fenômenos que envolvem nossas “vontades” e “desejos”. Na área aplicada, é possível ver avanços na promoção de aprendizagem de habilidades ou na manutenção de hábitos em diferentes contextos. Tal conceito possui um histórico na Psicologia (Todorov & Moreira 2005; Aloi, Haydu & Carmo, 2014) e na Análise do Comportamento (Cunha, 2000; Miguel, 2000; Michael, 2005; Pereira, 2013; Aloi, Haydu & Carmo, 2014). Nesse último caso, a Motivação pode envolver: o conceito de drive e operações de privação e saciação (Cunha, 2000; Miguel, 2000; Pereira, 2013); a contingência tríplice, especificamente os efeitos ou os resultados que o comportamento produz no ambiente (Postalli, Almeida, Canovas & Souza, 2008); e o conceito de operações motivadoras/motivacionais  (Michael, 2005; Pereira, 2013; Aloi, Haydu & Carmo, 2014), que inclui o estudo de conceitos de operações estabelecedoras e abolidoras. Ainda, poderia-se incluir nessa lista o estudo de tipos de reforçadores e esquemas de reforçamento, o conceito de momentum comportamental, controle de estímulos, estratégias de manutenção e aquisição de habilidades, etc.

Dentre as diferentes abordagens para tratar a Motivação dentro da Análise do Comportamento, convém sublinhar o conceito de Operações Motivacionais. Incluir a análise da Motivação dentro de uma análise funcional parece proporcionar uma análise mais rica e dimensional do comportamento, tornando algumas variáveis mais vibrantes – e, consequente, permitindo colocar o indivíduo sob controle de estímulos adequado para fins de planejamento e previsão. E o próximo pesquisador do Projeto contribuiu imensamente para a elaboração conceitual da Motivação a partir de uma perspectiva comportamental.

Referências:

Aloi, P.E.; Haydu, V.B.; Carmo, J.S. (2014) Motivação no ensino e aprendizagem: algumas contribuições da análise do comportamento. Revista CES Psicologia, 7(2), 138-152.

Cunha, R. N. (2000). Motivação: Uma Tradução Comportamental. In: Regina Christina Wielenska. (Org.). Sobre Comportamento e Cognição – Questionando e Ampliando a Teoria e as Intervenções Clínicas e em Outros Contextos. 1aed.Santo André – SP: SET, 2000, v. 06, p. 78-82.

Michael, J. (2005). Motivating operations. Em J. O. Cooper, T. E. Heron, & W. L. Heward, Applied behavior analysis (2nd ed.) Upper Saddle River, NJ: Prentice Hall/Merrill.

Miguel, C. (2000). O Conceito de Operação Estabelecedora na Análise do Comportamento. Psicologia: Teoria e Pesquisa, Vol.16, n.3, pp.259-267.

Nassar, R. (1975/1989). Lavoura Arcaica. Companhia das Letras: São Paulo.

Pereira, M.B.R. (2013). A noção de motivação na análise do comportamento. Tese de doutorado (158p.). Programa de Estudos Pós-graduados em Psicologia Experimental: Análise do Comportamento, Pontificia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil.

Postalli, L.M.M.; Almeida, D.M.B. de; Canovas, D. de S.; Souza, D.G. de. (2008) Ensino de reconhecimento de palavras no contexto da leitura de histórias infantis. Revista Brasileira de Análise do Comportamento, Vol.4, n.1, pp.27-51.

Rodrigues, M. E. (2011). Motivação: o que é e como implementar. Disponível em http://escritoscomportamentais.blogspot.com/2011/12/motivacao-o-que-e-e-como-implementar.html

Todorov, J.C.; Moreira, M.B. (2005). O conceito de motivação na psicologia. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, Vol.VII, n.1, pp.119-132.

Zampieri, M. (2015). O que a análise de contingências pode nos ensinar sobre motivação – Parte 1. Disponível em http://www.comportese.com/2015/05/o-que-a-analise-de-contingencias-pode-nos-ensinar-sobre-motivacao-parte-1/

Post26capa(Foto: Fernanda Oda)


Leia mais sobre o Desafio Número 8:
Como promover a Motivação a partir de uma perspectiva científica?
Oito: Dr. John L. (Jack) Michael, Parte 1
Oito: Dr. John L. (Jack) Michael, Parte 2


Leia mais sobre o Projeto a Fonte e a Ponte e a Análise do Comportamento:
a Apresentação
o Início dos Resultados
Por que eu deveria aprender sobre a ciência do comportamento?
as Profundezas do Método

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Sete: Dr. Nathan H. Azrin, Parte 2

Em uma postagem anterior (Parte 1), a leitura de uma publicação do Professor Nathan Azrin foi relatada. Na sequência, alguns dados sobre suas contribuições são apresentados.

O Dr. Nathan H. Azrin, carinhosamente chamado de Nate, faleceu em 2013 aos 82 anos. 

Post25foto1Trecho 1 – Passagem extraída do artigo de Ayllon & Kazdin Nathan Azrin (1930-2013), traduzida pela autora.

Nascido em Boston em 1930, Azrin estudou na Boston University e em Harvard, onde foi aluno de B. F. Skinner (Rachel Azrin, 2014). Casou, teve uma filha e três filhos e sete netos. “Ele acreditava em demonstrar amor pelos outros através de ações e ele até choraria quando ele via um filme triste sobre alguém e seus problemas.” (Rachel Azrin, 2014). Sua filha primogênita relata: “‘Eu amei meu pai e o mundo também o amou’ essa foi a última coisa que eu disse a ele antes dele falecer, e até mesmo nesse momento final ele tinha seu famoso sorriso em seu rosto.”. (Rachel Azrin, 2014).

Foi diretor do Hospital Anna State em Illnois, onde realizou trabalhos notáveis com seu colega Teodoro Ayllon, com quem publicou em 1968 o primeiro livro sobre Economia de Fichas (“token economy”) da história da Análise do Comportamento; tal criativa contribuição ampliou a aplicação dos princípios da Análise do Comportamento a problemas cotidianos em contexto clínico, institucional e educacional. Era professor emérito da Nova Southeastern University. Estudos básicos em comportamento animal sobre a Punição resultaram em uma contribuição monumental para a área:

Post25foto2Trecho 2 – Passagem extraída do artigo de Ayllon & Kazdin Nathan Azrin (1930-2013), traduzida pela autora.

Profissionalmente, Azrin contribuiu para a vida de pessoas com transtornos de desenvolvimento, autismo, problemas no trabalho, síndrome de Tourette, problemas com cuidados pessoais, transtornos de fluência da fala, problemas com abuso de drogas, autoagressão, problemas conjugais, gagueira, hábitos ansiosos, transtornos alimentares, depressão, etc.

Para mais informações sobre o Professor Azrin, vale conferir o site http://www.nathanazrin.com

Com o estudo das contribuições do Professor Nathan Azrin para o mundo, encerro o Desafio número 7 do Projeto. Na próxima postagem, um prólogo sobre o assunto estudado pelo próximo pesquisador será apresentado.

Referências:

Ayllon, T. ; Kazdin, A. E. (2013). Nathan Azrin (1930-2013). American Psychologist, Vol 68(9), Dec 2013, 884.

Azrin, R. (2014). Memorial: Nate Azrin. Operants, Quarter I, 2014.


Leia mais sobre o Desafio Número 7:
Por que eu deveria aprender sobre a Punição?
Sete: Dr. Nathan H. Azrin, Parte 1


Leia mais sobre o Projeto a Fonte e a Ponte e a Análise do Comportamento:
a Apresentação
o Início dos Resultados
Por que eu deveria aprender sobre a ciência do comportamento?
as Profundezas do Método