Para além do organismo: Algumas reflexões sobre a expansão da Análise do Comportamento

Como campo de saber amplo, a Análise do Comportamento é “uma ciência viva, em processo de crescimento e em profundo refinamento.” (Hunziker, 2013). Sobre as descobertas na área, Andery (2011) descreve: “(…) produziu-se desde os anos de 1930 um corpo de conhecimentos sobre o comportamento dos organismos (…)” (p.205). 

Mas quem são esses organismos? Sabe-se que os estudos na área abrangem o exame do comportamento humano e do comportamento de outros animais. De acordo com Sokolowski, Disma e Abramson (2010), nos artigos publicados no JEAB (Journal of the Experimental Analysis of Behavior) – no período 1958-2007 – são apresentados dados de estudos do comportamento de aves (principalmente pombos), roedores (ratos, em sua grande maioria), humanos, primatas, outros mamíferos (cavalos, gatos, cães, golfinhos), peixes, répteis e invertebrados (incluindo insetos como abelhas e baratas).

É sabido que a observação do comportamento animal não-humano (principalmente de ratos e pombos como sujeitos experimentais) em condições controladas foi essencial para o crescimento do projeto científico de Skinner em seus primeiros anos como pesquisador. Desde o nascimento da Análise Experimental do Comportamento operante, processos comportamentais são explorados e acumulados, permitindo a expansão da Análise do Comportamento. Tal campo de saber também se amplia, por outra via, com a interlocução com outros campos de conhecimento. Mais recentemente, por exemplo, observa-se um diálogo maior da área com as Neurociências. O crescimento da Análise do Comportamento nesse contexto parece ir tomando várias direções; enquanto Todorov (1991) apresentou dados sobre alguns estudos cujo interesse residia em mecanismos neurais da aprendizagem, Silva, Gonçalves e Garcia-Mijares (2007) apontam que o avanço tecnológico nas neurociências nos últimos anos permitiu a demonstração de que a atividade neural pode ser selecionada pelas consequências. 

Silva, Gonçalves e Garcia-Mijares (2007) ainda indicam: “Juntamente com investigações sobre as bases moleculares do condicionamento clássico, esses estudos são exemplos de possibilidades que estão sendo criadas para o estudo das relações comportamento-ambiente dentro do organismo.” (p.17). Nesse sentido, estaria a Análise do Comportamento se expandindo para aquém do organismo, em um nível suborganísmico?; nota-se que o estudo de processos comportamentais parece abranger o exame de parte do organismo – no caso, envolvendo o sistema nervoso – como uma unidade sujeita à aprendizagem operante. Considerando as possibilidades de expansão da área e da análise de outras unidades sujeitas a esse tipo de aprendizagem, poderia a Análise do Comportamento se direcionar também para além do organismo, em um nível supraorganísmico?

É de conhecimento que o compromisso de Skinner com uma ciência do comportamento estava especialmente voltado para a compreensão do comportamento humano, inclusive seu aspecto social. Em relação à trajetória desse cientista, Andery (2011) bem narra: “(…) a partir dos anos 1950, de fato, Skinner tomou o comportamento social e o comportamento verbal como foco central de seu interesse, continuamente escrevendo sobre o tema e seguidamente argumentando que a compreensão de suas particularidades seria indispensável para a compreensão do homem e do comportamento humano.” (p.205). Ainda, Todorov e Moreira (2004) complementam: “(…) O maior componente desta visão de mundo está na extensão de princípios comportamentais para a análise de processos sociais e culturais. Em ‘Ciência e Comportamento Humano’ Skinner (1953) dedicou as três últimas seções para discutir extensivamente assuntos sobre a natureza, evolução, sobrevivência, valores e planejamento cultural.” (p.25).

Ao se considerar as possibilidades de expansão da área nessa direção, algumas dúvidas podem emergir: Por que estudar a cultura? Por que devemos nos direcionar para além do organismo?

Alguns autores reconhecem a cultura como objeto legítimo de uma ciência do comportamento (por exemplo, Andery, Micheletto, Sério, 2005; Andery, 2011). Ainda, é possível argumentar que uma compreensão mais abrangente de diferentes aspectos do comportamento implicaria no estudo da cultura, a qual também é parte formadora do nosso comportamento. Sobre essa natureza social do comportamento humano, Andery (2011) comenta: 

Post8foto2Trecho 1 – Passagem extraída do artigo de Andery Comportamento e cultura na perspectiva da análise do comportamento (2011), p.207.

Outro caminho de argumentação em defesa da relevância do estudo da cultura é recorrer à necessidade de alternativas para lidar com problemas humanos, os quais são, também, práticas culturais: produtos de uma história biológica de seleção e variação, somos capazes de aprender, transmitimos práticas para diferentes pessoas e gerações, e nos engajamos em práticas mais ou menos sustentáveis. Nossas ações, que produzem efeitos, podem ocorrer em momentos diferentes, mas o conhecimento dessas contingências e de efeitos cumulativos – às vezes desastrosos, como saber? – pode ser relevante para a sobrevivência da nossa espécie.

Post8foto3Trecho 2 – Passagem extraída do artigo de Todorov e Moreira Análise Experimental do Comportamento e Sociedade: Um Novo Foco de Estudo (2004), p.25.

Uma última pergunta poderia emergir: como estudar fenômenos culturais dentro da Análise do Comportamento? A discussão do lugar da cultura em uma ciência do comportamento é plural e alguns debates são recentes. Há os que colocam, por exemplo, que uma abordagem adequada dos fenômenos culturais traz consigo o problema de uma nova unidade de análise (Andery, Micheletto, Sério, 2005), e que pelo menos dois fatos não podem ser ignorados pelo analista do comportamento: i) a existência de dados sobre a cultura produzidos externamente à Análise do Comportamento (Andery, 2011); ii) a existência de contingências complexas quando se trata de fenômenos culturais, que podem tornar a unidade de análise utilizada na descrição do comportamento operante insuficiente (Andery, Micheletto, Sério, 2005; Andery, 2011). Uma possível interpretação histórica do tratamento desse tema é de que a cultura, antes tomada como variável independente, passa a ser considerada como variável dependente (Andery, 2011, p.207). Por fim, talvez na mesma medida em que o estudo de um nível suborganísmico envolve a aproximação com as Neurociências, os estudos na área da cultura, aqui tratados como de nível supraorganísmico, podem também favorecer a interlocução com campos de conhecimentos como a Antropologia e a Sociologia; ainda, um diálogo com perspectivas evolucionistas da Biologia também parece frutífero para o debate sobre a cultura (Sampaio, Ottoni & Benvenuti, 2015).

O próprio Skinner pareceu se interessar por diferentes aspectos sociais e culturais do ser humano, e diferentes faces desse tema foram estudados por ele. Além dele, outros(as) profissionais dedicaram/dedicam suas vidas ao estudo da cultura. E a próxima pesquisadora do Projeto é conhecida pelo seu trabalho conceitual na seleção em nível comportamental e cultural.

Referências:

Andery, M. A. P. A. (2011). Comportamento e cultura na perspectiva da análise do comportamento. Perspectivas em Análise do Comportamento, vol.02, n.2, pp.203-217.

Andery, M. A. P. A., Micheletto, N., Sério, T. M. A. P. (2005). A Análise de Fenômenos Sociais: Esboçando uma Proposta para a Identificação de Contingências Entrelaçadas e Metacontingências. Revista brasileira de análise do comportamento – Brazilian journal of behavior analysis. – Vol. 1, n.2 (2013), pp.149-165.

Hunziker, M. H. L. (2013). Editorial (Volume 9, Números 1 e 2). Revista brasileira de análise do comportamento – Brazilian journal of behavior analysis. – Vol. 9, n.1 (2013). Belém.

Sampaio, A. A. S.; Ottoni, E. B.; Benvenuti, M. F. L. (2015). A Análise do Comportamento no contexto do estudo evolucionista do comportamento social e da cultura. Estudos de Psicologia, 20(3), julho a setembro de 2015, pp.127-138.

Silva, M. T. A.; Gonçalves, F. L.; Garcia-Mijares, M. (2007). Neural Events in the Reinforcement Contingency. The Behavior Analyst, 30, pp.17-30,  No. 1 (Spring).

Sokolowski, M. B. C.; Disma, G.; Abramson, C. I. (2010). A Paradigm for Operant Conditioning in Blow Flies (Phormia terrae novae Robineuau-Desvoidy,1830). Journal of the Experimental Analysis of Behavior, 93, pp.81-89, Number 1 (January).

Todorov, J. C. (1991). Progressos no estudo das bases neurais da aprendizagem. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 7, pp.303-310.

Todorov, J. C.; Moreira, M. (2004). Análise Experimental do Comportamento e Sociedade: Um Novo Foco de Estudo. Psicologia: Reflexão e Crítica, 2004, 17(1), pp. 25-29.
Post8foto1(Foto: Fernanda Oda)


Leia mais sobre o Desafio Número 2:
Dois: Dra. Sigrid S. Glenn, Parte 1
Dois: Dra. Sigrid S. Glenn, Parte 2

Leia mais sobre o Projeto a Fonte e a Ponte e a Análise do Comportamento:
a Apresentação
o Início dos Resultados
Por que eu deveria aprender sobre a ciência do comportamento?
as Profundezas do Método

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