Um: Dr. Brian A. Iwata, Parte 1

Em 2004 foram reconhecidas as contribuições de cinco profissionais. Um deles é o Professor Doutor Brian A. Iwata (University of Florida, Gainesville, Florida/EUA), o primeiro pesquisador a ser estudado no Projeto. Suas contribuições para a Análise Aplicada do Comportamento são extensas, e, de acordo com o site da ABAI, seu papel ativo como professor, pesquisador e editor é reconhecido. Contribuiu também para a Análise Experimental do Comportamento, para a pesquisa básica e aplicada. Seus programas de pesquisa têm enfoque em diferentes temas, destacando-se as pesquisa em transtornos de aprendizagem e comportamento, incluindo o tratamento de comportamento problemático severo de indivíduos com desenvolvimento atípico. Na postagem anterior, o campo da Análise Aplicada do Comportamento foi descrito; na sequência, apresento alguns dados dessa área que foram obtidos no estudo de algumas publicações do primeiro pesquisador do Projeto.

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Figura 1– Brian A. Iwata (Fonte: site da ABAI)

O presente texto tem como objetivos: i) apresentar um panorama sobre comportamentos problemáticos severos, bem como as características de alguns estudos conduzidos sobre o tema na Análise Aplicada do Comportamento; ii) descrever uma breve caracterização da metodologia da Análise Funcional; por fim, e paralelamente, iii) comparar alguns usos das terminologias citadas nos contextos norte-americano e brasileiro.

O termo comportamento problemático (em inglês, problem behavior) pode ser definido como “excesso comportamental que é socialmente significante na medida em que alguém se queixa de sua ocorrência. Esses comportamentos são tipicamente de intensidade ou frequência suficiente para que a segurança da pessoa ou de outras pessoas esteja ameaçada, a habilidade da pessoa ou de outras pessoas para adquirir novas habilidades esteja comprometida, ou os arranjos de vida mais restritivos estejam garantidos” (Hanley, Iwata & McCord, 2003, p.150). Nota-se que no campo da Análise Aplicada do Comportamento o trabalho com esse tipo de comportamento vem sendo sistematizado. Ainda, tais intervenções podem ou não estar vinculadas a interesses de pesquisa aplicada; em ambos os casos, Iwata e Dozier (2008) sugerem a utilização da metodologia da Análise Funcional (em inglês, Funcional Analysis methodology, ou FA) – os autores argumentam que tal metodologia, ao ser adaptada, pode ser mais facilmente aplicável e amplamente utilizada pelos profissionais que não estão ligados à atividade de pesquisa e que trabalham com comportamento problemático.

A respeito dessa metodologia, falaremos mais adiante. Nesse momento, cabe notar que a tradução literal de problem behavior seria “comportamento problema”, e não “comportamento problemático”; no entanto, a comunidade brasileira costuma utilizar o termo “comportamento-problema” para se referir ao “comportamento-alvo” ou ao “problema clínico” do paciente/cliente a ser trabalhado em uma intervenção (em contraposição ao “comportamento-queixa” ou “queixa clínica”), que não necessariamente está ligado à ameaça de segurança pessoal, ao comprometimento de aquisição de habilidades ou a uma condição de vida restritiva (para mencionar alguns exemplos dessa utilização do termo “comportamento-problema”, Borges, 2009; Fonseca & Pacheco, 2010; Guilhardi, 2012;  Kerbauy, 1999; Meurer & Menegatti, 2013; Vermes & Zamignani, 2003; Zamignani & Banaco, 2005). Ainda, parece ser comum em artigos brasileiros sobre autismo a utilização dos termos “comportamento problemático” ou “respostas problemáticas” (por exemplo, em Goulart & Assis, 2002), que fazem menção justamente a possíveis categorias do que é chamado de “problem behavior” nos artigos norte-americanos. Dessa forma, a partir dos dados mencionados e para fins de distinção e clareza, a terminologia  comportamento problemático parece ser mais adequada para se referir ao termo problem behavior.

Uma revisão (Hanley, Iwata & McCord, 2003) sobre as pesquisas na área de comportamento problemático apontou alguns dados interessantes. A maioria dos estudos no campo da Análise Aplicada do Comportamento sobre o tema se concentra no estudo do comportamento de pessoas com idade entre 1 a 18 anos; ademais, o comportamento de indivíduos com desenvolvimento atípico representa a grande maioria das pesquisas. As topografias mais comumente relatadas nesses estudos são, em ordem de maior frequência: auto-agressão, agressão, resposta disruptiva, estereotipia vocal, destruição de propriedade, outras estereotipias, não seguimento de instruções, crise diante de frustração, risco de fuga, consumo de material não alimentar, e outros (Hanley, Iwata & McCord, 2003, p.155). Diante da gravidade de algumas condutas, o terreno de estudo do comportamento problemático é também descrito como comportamento problemático severo (em inglês, Severe Problem Behavior, ou SPB). Sobre o local em que os estudos foram conduzidos, hospitais e escolas representam mais de 60% dos ambientes de intervenção. Nos estudos abrangidos pela revisão, a metodologia da Análise Funcional (FA) como meio de avaliação foi utilizada. Contudo, o que caracteriza essa metodologia?

Iwata e Dozier (2003) definem: “A metodologia da Análise Funcional (FA) é um padrão bem-estabelecido para avaliação em pesquisa em análise aplicada do comportamento” (p.3). Ainda, tem-se que “A metodologia da Análise Funcional envolve a avaliação do comportamento problemático sob condições em que eventos antecedentes e consequentes são manipulados experimentalmente” (Camp, Iwata, Hammond & Bloom, 2009, p.469). É importante notar que ambas as definições de FA apresentadas envolvem a (1) avaliação do comportamento alvo; adicionalmente, no segundo caso, a caracterização de FA parece implicar na manipulação experimental e no estudo do comportamento problemático em particular. Para tentar complementar e clarificar o cenário do que vem a ser a FA no contexto dessas publicações norte-americanas, vale apontar que o conceito é com frequência comparado com a estratégia da Análise Descritiva (Descriptive Analysis, ou DA), a qual envolve observações diretas em condições não controladas do comportamento sem manipulação de variáveis; em oposição, a FA se diferenciaria por envolver (2) observações diretas mas em (3) situação controlada e com manipulação de variáveis (Iwata & Dozier, 2008; Camp, Iwata, Hammond & Bloom, 2009; Rooker, DeLeon, Borrero, Frank-Crawford & Roscoe, 2015).

Para finalizar, ao leitor já pode ter ocorrido a seguinte dúvida ao percorrer o texto: seria essa Functional Analysis methodology (FA) a mesma análise funcional que nós, brasileiros, nos referimos? Ao que os dados indicam, uma resposta simples não pode ser dada para essa questão. Vejamos alguns aspectos: Souza (1999) afirma que a análise funcional, como “característica central da Análise Experimental”, pode ser definida como “a identificação e o controle de variáveis das quais o comportamento é função” (Souza,  p.88). Um detalhe que podemos extrair dessa caracterização é o fato de que a a análise funcional está relacionada com o contexto experimental, de avaliação do comportamento em ambiente controlado e de demonstração de relações funcionais entre variáveis; nesse sentido, a FA parece se aproximar do que pode ser chamado de análise funcional. No entanto, sabemos que o termo análise funcional pode ser utilizado de uma forma mais ampla e para descrição de relações que não necessariamente envolvem um contexto experimental: emprega-se, por exemplo, como recurso explicativo de análises interpretativas nas terapias analítico-comportamentais. Sobre essa heterogeneidade, Neno (2003) ressalta a diversidade de empregos da terminologia “análise funcional”, a qual tem sido usada “como um tipo de recurso explicativo de que se serve a análise do comportamento (…) e também como estratégia (…) ou método de intervenção em terapias comportamentais” (p.152); complementa-se que, além de diferentes usos da terminologia, uma diversidade de definições para o termo tem sido apresentadas. A partir desses dados, é notável também que a discussão dessa pluralidade em torno dos conceitos se estabelece tanto em contexto brasileiro (Neno, 2003) quanto em âmbito norte-americano (Sturmey, 1996, e Haynes & O’Brien, 1990 – citados em Neno, 2003).

Nota sobre os termos Functional Assessment, Functional Analysis, Descriptive Analysis e Indirect Analysis (escrita em maio de 2016): Alguns analistas do comportamento norte-americanos parecem utilizar o termo Functional Behavior Assessment (ou apenas Functional Assessment) para denominar tipos diferentes de avaliações iniciais nas intervenções aplicadas na área, que envolvem a coleta de dados que auxilia na identificação da função do comportamento de interesse. Por exemplo, três tipos de “Assessments” (avaliações) costumam ser diferenciadas: 1) Functional Analysis, ou FA, que essencialmente envolve a observação direta do comportamento e manipulação de variáveis em situação controlada; 2) Descriptive Analysis, ou DA, que essencialmente envolve observação direta, mas em condições naturais e sem manipulação de variáveis; e 3) Indirect Analysis/Asssessments, que incluem outras formas de avaliação que não se utilizam de observação direta do comportamento, tampouco de ambiente controlado ou de manipulação de variáveis (por exemplo, entrevistas, questionários, checklists, etc.). Muitas questões são bem interessantes de explorar nesses temas, mas em suma Functional Behavior Assessment parece ser o termo mais abrangente para caracterizar as avaliações iniciais que visam identificar a função do comportamento de interesse, e a Functional Analysis (FA), a Descriptive Analysis (DA) e Indirect Analysis se caracterizam como tipos de Functional Behavior Assesments. A leitura de artigos do Prof. Iwata e de outros autores da área pode ajudar a clarificar essas questões.

Referências:

Borges, N. B. (2009). Terapia Analítico-Comportamental: da teoria à prática clínica. Em Sobre Comportamento e Cognição: Desafios, soluções e questionamentos – Org. Regina Christina Wielenska 1a ed. Santo André, SP: ESETec Editores Associados, 2009. v.24.

Camp, E. M.; Iwata, B. A.; Hammond, J. L.; Bloom, S. E. (2009). Antecedent Versus Consequent Events as Predictors of Problem Behavior. Journal of Applied Behavior Analysis, 42, pp.469-483, Number 2 (Summer).

Fonseca, R. P.; Pacheco, J. T. B (2010). Análise funcional do comportamento na avaliação e terapia com crianças avaliação e terapia com crianças. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, Vol. XII, nº 1/2, pp. 1-19.

Fellows of ABAI – Brian A. Iwata. Disponível em https://www.abainternational.org/constituents/bios/brianiwata.aspx

Goulart, P.; Assis, G. S. A de. (2002).Estudos sobre autismo em análise do comportamento: aspectos metodológicos. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, vol.4 no.2, São Paulo, dezembro.

Guilhardi, H. J. (2012). Considerações Conceituais e Históricas sobre a Terceira Onda no Brasil. Disponível em http://www.itcrcampinas.com.br/txt/terceiraonda.pdf

Hanley, G. P.; Iwata, B. A.; McCord, B. E. (2003). Functional Analysis of Problem Behavior: a Review. Journal of Applied Behavior Analysis, 36, pp.147-185, Number 2 (Summer).

Iwata, B. A.; Dozier, C. L. (2008). Clinical Application of Functional Analysis Methodology. Behavior Analysis in Practice, 1 (1), pp.3-9 (Spring).

Kerbauy, R. R. (1999). Pesquisa em terapia comportamental: problemas e soluções. Sobre Comportamento e Cognição: psicologia comportamental e Cognitiva: da reflexão teórica à diversidado da aplicação. – Org. Rachel Rodrigues Kerbauy e Regina Christina Wielenska. 1 ed. Santo Andró, SP: ARBytes, 1999. v. 4.

Meurer, P. H.; Menegatti, C. L. (2013). Estudo de Caso Sobre Problemas de Comportamento de Uma Criança Inserida em Uma Família Não Tradicional. Interação em Psicologia, Curitiba, v. 17, n. 1, p. 59-65, jan./abr.

Neno, S. (2003). Análise Funcional: Definição e Aplicação na Terapia Analítico-Comportamental. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, Vol. V, Número 2, pp.151-165.

Rooker, G. W.; DeLeon, I.G.; Borrero, C. S. W; Frank-Crawford, M. A.; Roscoe, E. M. (2015). Reducing Ambiguity in the Functional Assessment of Problem Behavior. Behavioral Intervention, Vol. 30 (1), pp.1-35, February.

Souza, D. das G. de (1999). O que é Contingência? Em Sobre Comportamento e Cognição: aspectos teóricos, metodológicos e de formação em análise do comportamento e terapia cognitivista – Org. Roberto Banaco, 2ª Edição, Santo André: SP, ARBytes.

Vermes, J. S.; Zamignani, D. R. (2002). A perspectiva analítico-comportamental no manejo do comportamento obsessivo-compulsivo: estratégias em desenvolvimento. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, vol.4 no.2 São Paulo dez. 2002

Zamignani, D. R.; Banaco, R. A. (2005).Um Panorama Analítico-Comportamental sobre os Transtornos de Ansiedade. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, Vol. VII, nº 1, pp. 077-092.


Leia mais sobre o Desafio Número 1:
Problemas Humanos e Análise Aplicada do Comportamento
Um: Dr. Brian A. Iwata, Parte 2


Leia mais sobre o Projeto a Fonte e a Ponte e a Análise do Comportamento:
a Apresentação
o Início dos Resultados
Por que eu deveria aprender sobre a ciência do comportamento?
as Profundezas do Método

 

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