Por que eu deveria aprender sobre a ciência do comportamento?

Por que eu deveria aprender sobre a ciência do comportamento?
5 motivos para você começar a se interessar pelo tema

Estamos familiarizados com o comportamento humano na nossa rotina: convivemos com pessoas, conhecemos suas histórias de vida, observamos padrões e notamos mudanças em seu comportamento. Ainda, estamos também familiarizados com nosso próprio comportamento: agimos, pensamos, sentimos – e também observamos e conhecemos nossas condutas. No entanto, aprender sobre uma ciência do comportamento é uma tarefa difícil, por diversos motivos.

Por exemplo, há de se considerar que o comportamento, em si, é um objeto de estudo complexo, com inúmeras faces e camadas. Ainda, quando falamos em uma ciência, estamos preocupados em elaborar não só suposições sobre um caso específico e particular, mas sim em formular leis gerais e buscar uniformidades que se aplicam a um contexto mais amplo. 

Historicamente, seu estudo e descrição tem inspirado filósofos, historiadores, escritores e cientistas: o comportamento de pessoas gera interesse e questionamentos; com isso, diversos mitos, teorias e explicações já foram formuladas. Em vista disso, onde, então, encontrar respostas “confiáveis” sobre o comportamento humano? Uma resposta simples para essa questão não pode ser dada, pois diferentes propostas – dentro e fora da ciência, e com diferentes objetivos – foram desenvolvidas para compreender o comportamento. Todavia, dentro desse cenário de produção de conhecimento e possibilidades, cabe destacar a Análise do Comportamento: a partir de uma perspectiva científica, esse campo de saber procura ampliar o poder explicativo sobre o comportamento. As práticas derivadas dessa ciência vem sendo reconhecidas mundialmente devido à  consistência dos princípios de aprendizagem e processos comportamentais descobertos, ao método empiricamente direcionado e às evidências de sua efetividade.

Nesse ponto, ao leitor pode ocorrer a seguinte pergunta: Mas por que eu deveria aprender sobre uma ciência do comportamento? 

Certamente, há inúmeras respostas para essas perguntas. Com base em algumas leituras e reflexões pessoais sobre o assunto, apresento abaixo 5 motivos para você aprender (ou, pelo menos, começar a explorar o campo) sobre o comportamento humano a partir de uma perspectiva científica.

1 – O comportamento humano como um aspecto presente.

Tente imaginar um dia comum de sua vida: com quantas pessoas você se relaciona no decorrer do dia? As relações interpessoais podem ser mais ou menos frequentes a depender do seu estilo de vida –  mas elas estão presentes. Seu trabalho ou algumas de suas atividades diárias podem não envolver interações sociais, mas certamente seu círculo pessoal envolverá amigos(as), familiares, etc. Somos seres sociais e vivemos em um contexto repleto de relações interpessoais e exigências. Assim, não é uma questão de escolha: inevitavelmente, precisamos lidar com comportamento humano diariamente. Dessa forma,

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Trecho 1 – Passagem extraída do livro de Catania Aprendizagem: Comportamento, Linguagem e Cognição (1998/1999), p.23.

Com base nessa passagem, ressalta-se uma última observação: ainda que não estejamos em contato com o comportamento de outras pessoas, fatalmente estamos em contato com nosso próprio comportamento.

2 – É preciso encontrar fontes confiáveis de informação sobre o comportamento.

O fato de que o comportamento pode ser amplamente observado não é necessariamente uma vantagem. Por ser um aspecto extensamente presente,  o comportamento pode ser um objeto de estudo também amplamente incompreendido; historicamente, muito já se falou sobre ele. Em outras palavras: “(…) Realmente, não há assunto com o qual pudéssemos estar melhor relacionados (…).  Mesmo que tenhamos observado o comportamento por muitos anos, não somos necessariamente capazes, sem ajuda, de exprimir uniformidades adequadas ou relações ordenadas.” (Skinner, 1953/2003, p.15). A história nos mostra que muitas interpretações equivocadas sobre o comportamento já foram feitas – com isso, é possível produzir efeitos danosos e perigosos, os quais podem ameaçar a vida de pessoas e a sobrevivência de culturas. Hoje, por outro lado, suportes teóricos, empíricos e científicos têm sido construídos para embasar afirmações sobre o tema; descobriu-se que o comportamento não é casual e, como tal, obedece a leis naturais – e pode ser descrito, analisado e modificado. Mesmo que cada indivíduo seja único e produto de uma história de vida particular, não se pode ignorar que somos também produto de uma história biológica e evolutiva: nota-se que há uniformidades nos processos de aprendizagem, seleção e variação no comportamento de seres humanos e animais não humanos. Ainda, tal perspectiva mostra-se fundada, pois:

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Trecho 2 – Passagem extraída do livro de Chiesa Behaviorismo Radical: A filosofia e a ciência (2006), p.16.

3 – A análise das relações comportamentais como instrumento.

A Análise do Comportamento trabalha com análises funcionais entre comportamento e contexto em que ele ocorre. Mais precisamente, “(…) o estudo do comportamento está interessado nas relações entre eventos ambientais (…) e as ações do organismo.” (Catania, 1998/1999, p.44). A observação dessas relações comportamentais permite analisar situações, processos, fenômenos ou problemas, e encontrar possíveis soluções ou alternativas. Tal ciência nos chamou a atenção para as consequências do comportamento e o seu papel seletivo: isto é, “O comportamento tem consequências, e uma propriedade do comportamento é que ele pode ser afetado por suas consequências.” (Catania, 1998/1999, p.81), podendo tornar o responder mais ou menos provável. Ainda, tal análise possibilita examinar a função do comportamento e seus efeitos.

4 – A compreensão do nosso próprio comportamento.

Podemos evitar algumas relações interpessoais, mas não podemos fugir de nós mesmos: precisamos aprender a lidar com nosso próprio comportamento. Na medida em que aprendemos a enxergar nosso próprio comportamento – incluindo nossas limitações –, estamos também ampliando nossas possibilidades de atuação sobre o mundo e promovendo autoconhecimento. Sobre isso,

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Trecho 3 – Passagem extraída do livro de Skinner Sobre o behaviorismo (1974/2014), p.31.

Enxergar a si mesmo pode parecer uma tarefa trivial – contudo, a tarefa é mais complexa do que pode aparentar; assim como fugimos de algumas relações interpessoais, também podemos fugir de nossos próprios pensamentos e emoções. Dessa forma, enxergar-se é um trabalho ativo e que envolve aprendizado, que pode possibitar, por sua vez, a criação de condições para a produção de mudanças efetivas em nossas vidas. Mas como mudar a nós mesmos? Sobre isso, Sidman (1989/2009) descreve alguns aspectos, que incluem também o conceito de autocontrole:

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Trecho 4 – Passagem extraída do livro de Sidman Coerção e suas implicações (1989/2009), p.x.

5 – Agir sobre o mundo.

Chegamos ao último tópico: Apenas compreender o comportamento não é o bastante; utilizar o conhecimento e produzir mudanças também são atividades e interesses humanos. Sobre os empreendimentos científicos, Skinner (1953/2003) enunciou:

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Trecho 5 – Passagem extraída do livro de Skinner Ciência e Comportamento Humano (1953/2003), p.15.

Nosso comportamento tem um impacto sobre o mundo; problemas causados pela humanidade existem e tendem a se agravar. Tendo em vista esse cenário, mudar o mundo faz-se necessário; e, se precisamos mudar o mundo, precisamos mudar comportamentos.

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Trecho 6 – Passagem extraída do livro de Skinner Sobre o behaviorismo (1974/1982), p.11.

Referências:

Catania, A. C. (1998/1999). Aprendizagem: Comportamento, Linguagem e Cognição. Porto Alegre: ARTMED Editora.

Chiesa, M. (2006). Behaviorismo Radical: A filosofia e a ciência. Brasília: IBAC Editora; Editora Celeiro.

Sidman, M. (1989/2009). Coerção e suas implicações. Campinas: Editora Livro Pleno.

Skinner, B. F. (1953/2003). Ciência e Comportamento Humano. São Paulo: Martins Editora.

Skinner, B. F. (1974/2014). Sobre o Behaviorismo. São Paulo: Editora Cultrix.

Post3foto7(Foto: Fernanda Oda)


Leia mais sobre o Projeto a Fonte e a Ponte e a Análise do Comportamento:
a Apresentação
o Início dos Resultados
as Profundezas do Método

 

 

 

 

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